Há muitos anos atrás, uma jovem envolveu-se com toda sorte de desvios. Fê-lo não propriamente por falta de caráter, mas por destemperos do coração, apesar de se julgar impura, por conta dos preconceitos de seu tempo. Foi dona de casa de baixa reputação, onde recebia homens de todas as classes sociais, já que, na sua cidade, era a única que oferecia, com certa segurança e limpeza, essa ordem de serviços.

Adriadne, era esse o seu nome, desencarnou em lamentável estado de consciência. Não viveu muito no corpo. Faleceu antes que completasse 45 anos, vitimada por moléstia sexualmente transmitida, tendo desenvolvido seu trabalho no mercado do sexo, desde a prostituição de rua, até a direção eficiente do estabelecimento humilde que fundou e manteve até a sua morte.

No Além, muito embora sem perceber de imediato, recebeu assistência de sua mãezinha, alma nobre, de relativa elevação, para os padrões da Terra, que desencarnara dez anos antes, e, após duas décadas de aturdimento, em regiões inferiores de sofrimento, conseguiu perceber o auxílio de mentores abnegados, arregimentados pela intercessão amorosa da genitora. Foi, então, resgata para colônia de refazimento psíquico-moral. Lá, revelaram-lhe quanto se havia equivocado e quanto precisaria se esforçar, para reparar não somente prejuízos causados na vida de terceiros, mas também à sua própria mente, impregnada de viciações emocionais de difícil erradicação.

Assim, 30 anos após sua saída do plano físico, eis que retorna ao proscênio das lutas terrestres o espírito de Adriadne que, por bênção especial, recebe o apoio de sua mãezinha, que reencarna ao seu lado, para ajudá-la nas tarefas de resgate moral, enquanto ela própria trabalharia na aquisição de novos méritos para o futuro. Ambas portariam corpos físicos invertidos à sua postura psicológica predominantemente feminina. Ou seja, ambas nasceriam em corpos de homem; e ambas desenvolveriam tendências homossexuais. Seriam irmãos biológicos e, juntos, tentariam trabalhar para recuperar o tempo perdido por Adriadne, em belíssima obra de caridade e amor ao próximo, erguida em favor daqueles que se alojam na aduana do outro mundo, sem amparo da parentela corporal. E foi assim que, antes que completassem 25 anos (Adriadne) e 27 aquela que fora sua mãe na passada existência, fundaram pequena casa de asilo para idosos, onde iniciaram linda obra de socorro a velhinhos desvalidos da sorte.

Algumas pessoas observavam, com malícia, os gestos delicados dos dois irmãos, que não logravam ocultar, por seu longo passado na feminilidade, seus inequívocos traços psicológicos do sexo oposto ao corpo que usavam para expressar-se no mundo físico. Estavam, porém, sob beneplácito do Plano Maior de Vida, que lhes patrocinava as iniciativas no campo do bem. Adriadne, porém, agora Paulo, teimava em enfurnar-se em antros de viciação, quase todas as noites, onde se encontrava com pares da mesma condição homossexual, para intercâmbio de experiências sexuais. Júlio, aquele que fora, por mais de uma vida, sua mãe biológica, embora fosse igualmente alma invertida no corpo, de modo algum apresentava inclinação a acompanhá-lo em tais aventuras noturnas, repreendendo-o severamente, alertando-o quanto aos perigos e eventuais implicações de tais incursões perigosas. Paulo, porém, cheio de bravatas, como um adolescente rebelde, respondia-lhe, com certo ar de desdém:

– Você está sendo retrógrado! Parece que é reprimido e aceita essas imposições tirânicas da sociedade preconceituosa. Precisa viver o sexo, assim como eu, assim como todo mundo.

– Não estou dizendo que não devamos viver o sexo. Só que esses ambientes não parecem oferecer as melhores oportunidades de encontrar vivências equilibradas de sexo, exalam energias carregadas e consternam a mente dos circunstantes. Sinto-os cheios de vampiros de forças (afirmava, cheio de acerto, Júlio, que tinha conhecimento espírita).

– Bobagens! Não está vendo que isso é uma tolice cabal? Quero mais é me divertir!

E, assim, Paulo saía, sem a companhia do irmão, para longas noitadas, entre licenças morais perigosas e exposição desnecessária, inclusive, a contrair doenças sexualmente transmissíveis. O padrão cármico teimava em querer repetir-se, apesar de seus generosos impulsos e das atividades solidárias que desenvolvia, ao lado do irmão, com gente da terceira idade. Seus mentores espirituais, todavia, apiedados da condição de Paulo-Adriadne, temendo pelo pior (a perda do precioso ensejo de reerguimento espiritual e de condução à felicidade que Paulo desfrutava) resolveram-se por lhe causar uma certa comoção, numa de suas noites de fuga ao equilíbrio e ao bom senso.

Paulo chegou em casa lívido, por volta de três horas daquela madrugada de sábado. Júlio, premido por “estranha” intuição, foi despertado de seu sono profundo e encontrou o irmão arriado numa poltrona da sala com ar de total derrota, olhar perdido no infinito.

– Paulo, aconteceu alguma coisa? – interrogou a mãe espiritual, já tomada de preocupação. Não sei se quero falar.

– Vamos, desembucha, por favor! Essa sua cara está me deixando assustado.

– Rogério…

– Sim?

– Contraiu o HIV.

Júlio deixou seu corpo cair sobre o sofá em frente a Paulo.

– Não acredito, Paulo – disse, aturdido – é aquele mesmo com quem me disse ter feito sexo sem preservativo?

– Sim… Aquele mesmo.

Lágrimas, choro convulso, desespero. Os irmãos se abraçaram, madrugada a dentro, até que o dia raiasse. Heloísa, mãe biológica de ambos, que se acordava sempre cedo, antes das 7, mesmo em dias de fim de semana, pegou-os ainda sentados na mesma sala, ao final da conversa. Esconderam-lhe a situação, porém. Os pais não sabiam de nada – não tinham estrutura para aquela ordem de revelação. Paulo estava arrasado. Daria tudo para voltar atrás e corrigir o equívoco. Percebia, agora, que o irmão sempre tivera razão e que não deveria andar por aqueles redutos de perdição. Há muito notava que se sentia exangue, esgotado em suas forças, e percebendo ideias esquisitas de desistência da obra de caridade a que dedicava as horas livres, ao lado do irmão. Agora… aquela notícia trágica… Bem… parecia estar tudo perdido. Por fim, já ao final da confabulação fraterna, Júlio atalhou, sabiamente:

– Paulo, nós nos esquecemos de um detalhe: não é absolutamente certo que você tenha contraído o vírus. Há quanto tempo você teve intercurso íntimo com Rogério?

– Ah… já há algum tempo… Nós terminamos há mais de quatro meses. Ótimo! Ótimo por quê?

– Passamos do plano da janela imunológica – disse Júlio, professoral, que era formado em enfermagem.

– Como assim?

– Se você contraiu o vírus de Rogério, ele já pode ser detectado, porque já passamos de três meses depois de seu último encontro com ele. Não é certo que todos contraiam o vírus, por terem tido um ou alguns contatos com alguém contaminado. É uma espécie de roleta russa do sexo: não uma fatalidade inexorável. Vamos, hoje mesmo, fazer um exame de sangue, para verificar se você está com o vírus ou não.

Embora, de início, tivesse sentido algum alívio, Paulo tornou, em poucos instantes, ao padrão do pessimismo, julgando delirante a tese do irmão.

Uma semana se passou até a saída do resultado do exame. Uma semana de reflexões angustiosas, que, contudo, fizeram verdadeira revolução nos conceitos e valores de Paulo, tomado de profundos remorsos.

Negativo! – foi o resultado do exame. Paulo não contraíra, graças a Deus, o HIV do antigo namorado. Alegria suprema dos irmãos, que foram buscar juntos o documento tão amargamente esperado, e que chegaram exultantes em casa, abraçados, como duas crianças, para surpresa dos pais, que não sabiam do que se passava.

Paulo nunca mais voltou a frequentar os ambientes de caça sexual a que se acostumara. Seis meses depois, encontrou um rapaz educado, centrado e trabalhador, com quem começou a tecer namoro, e que somou esforços aos trabalhos do asilo. Júlio continuou celibatário, porque, de fato, não via muito espaço, em sua mente, para buscar sucesso afetivo, absorvido, como era, entre as atividades profissionais de enfermagem, que muito o agradavam, pela natureza de serviço e cuidado que condizia com sua personalidade amorosa e nutriz, e as numerosas providências e atividades do pequeno asilo, sob sua responsabilidade.

Estão hoje reencarnados e deverão assim estar, por mais, pelo menos, cinco décadas. Que Deus os abençoe em seu ministério de amor e redenção, de si e de muitos.

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Gustavo Henrique (Espírito)
28 de dezembro de 2003

(*) Interessante notar como, nessa historieta, Gustavo Henrique, com singeleza e didatismo, retraia dois tipos diferentes de vivência homossexual: um cármico, por necessidade de reajuste psicológico e espiritual, relacionado a abusos na sexualidade em outras vidas; e outro de ordem provacional-missionária, como sendo uma oportunidade de serviço e aprendizado diferenciada, para granjear maiores méritos e crescimento interior para o espírito, em função de os desafios existenciais serem substancialmente acentuados, em se nascendo gay, num mundo tão fechado ainda para homossexuais.

(Nota do Médium)