(BTA) – Roberto, você está aqui? Percebo sua aproximação mental. Estou certo?1

(ERD) – Sim, estou aqui.2

(BTA) – Bom dia. Há muito tempo que você estava na sala mediúnica?

(ERD) – Estou frequentemente. Trabalho neste núcleo3. Mas entendo o que quis perguntar. Há alguns dias, como notou, aguardo oportunidade de interagir com você, de modo mais objetivo, por meio de um diálogo, se possível.

(BTA) – Parece que estou disponível… Intuo isso. Eugênia e outros(as) mestres(as) espirituais autorizam essa nossa atividade, pelo que percebo.

(ERD) – Sim.

(BTA) – Estou às ordens. Que tema você escolheria como “motor” para nossa conversa? E ela será pública?

(ERD) – Em ordem inversa de resposta às duas indagações: sim, nosso intercâmbio tem como objetivo produzir peça para publicação; e o tema que abordaremos é o do casamento não monogâmico.

(BTA) – Ok.

(ERD) – Você falou recentemente que tem inclinação a compreender a existência de relacionamentos poligâmicos como um fenômeno que deve ser aceito com respeito, apesar de considerá-los sinal de imaturidade dos(as) poliamoristas. Secretamente, você também supõe ser essa espécie de dinâmica relacional oriunda de feridas psicológicas sérias dos(as) partícipes.

Pois bem. Discordamos – eu e um conjunto de espíritos na minha faixa de entendimento. Conquanto haja pessoas marcadas – na infância, mormente – por traumas inomináveis que as predispõem a vivências sexuais compatíveis com seus sentimentos de baixo autorrespeito, existem também, indubitavelmente, situações mais complexas, cármicas mesmo, no que tange ao paralelismo conjugal, em teias familiares bastante intricadas.4

(BTA) – Nossa!… Que controverso e interessante!…

(ERD) – Você pode manter sua opinião. Disse que estou representando uma faixa espiritual, e não toda a Comunidade dos Espíritos dedicados ao Bem. Nossa mestra Eugênia-Aspásia e o Conselho que ela representa solicitaram, todavia, que eu partilhasse minhas impressões sobre o tópico, a fim de provocar reflexões na fronteira do que se entende como ético, justo e bom, segundo os moldes das convenções no domínio material de vida.

Esses temas são delicados e a Divina Sabedoria deixa a porta aberta ao debate, para que os indivíduos amadureçam não só na troca de ideias contraditórias, mas na permuta de experiências vividas. A cada alma, no livre gozo de seu discernimento, compete avaliar o que julga certo ou não.

Devo, entretanto, lembrar que não vai longe o tempo em que LGBTs eram universalmente estigmatizados(as) como aberrações da natureza, criminosos(as) na visão de homens e mulheres, abominações aos Olhos de Deus. É recente, outrossim, a noção de que o divórcio seria alternativa decente para a vida de pessoas em tormentos da conjugalidade. Igualmente, faz poucas décadas que desfrutamos de permissão pública ao prazer sexual feminino, mesmo para mulheres casadas. Também em passado próximo, esperava-se, em toda parte, que as solteiras se preservassem virgens e as viúvas tivessem a “distinção” de não tornarem a contrair núpcias.

Recordemo-nos de que, ainda hoje, esses preconceitos tão retrógrados são norma em vários rincões do globo, configurando, em muitos países e grupos étnico-religiosos, crimes cominados em lei, amiúde passíveis de pena capital.

(BTA) – Como é incômodo ser cutucado nessas opiniões que nos são caras!… Elas nos parecem certezas, entrementes. E o pior é que queremos impô-las a todo mundo, não é?

(ERD) – Sim, há essa tendência humana, cheia de justificativas que conferem contornos de princípio intemporal ao que, definitivamente, é condicionado por mentalidade de época, cultura, lugar, perfil psicológico e nível moral de quem emita um parecer sobre dada circunstância analisada. Por isso afirmei que você e os(as) leitores(as) podem prosseguir com sua perspectiva inalterada sobre o tema. Por outro lado, a simples abertura a falar sobre possibilidades já constitui um indicativo de grau mais elevado de maturidade psicológica e, por conseguinte, de evolução espiritual.

(BTA) – Eu sei que você jamais estaria insinuando que a vocação à monogamia seria algo atrasado ou próprio de almas menos amadurecidas.

(ERD) – De modo nenhum. Há expressivo percentual, nos contingentes populacionais terrícolas, de indivíduos inclinados à monogamia e muito refinados moralmente, em sua honrosa vivência de disciplina emocional e afetiva.

(BTA) – Tampouco você está postulando o sexo livre, o casamento aberto ou a promiscuidade.

(ERD) – Jamais. Esses são caminhos para criaturas, de fato, pouco desenvolvidas na área afetivo-sexual. Algumas delas se viciaram no hedonismo contumaz e confundem modernidade com degradação da dignidade humana, comprazendo-se com o rebaixamento do espírito ao patamar dos(as) brutos(as).

(BTA) – Em adição, jogando lenha no fogo desta caldeira de elaboração de ideias, vou ajudá-lo com um argumento de peso. Quero romper minhas barreiras de percepção e concepção. Jung, gênio extraordinário da psiquiatria, era assumidamente polígamo.

(ERD) – Bem lembrado. O que houve de excepcional em Jung, diria mais, foi sua disposição, coragem e idealismo em registrar por escrito essa sua característica. A história, no entanto, está prenhe de exemplos de grandes realizadores, de ambos os gêneros e de qualquer orientação sexual, que revelaram tendências à intimidade romântica não monogâmica.

E, sendo a energia da libido, conforme denominou Freud, sumamente importante para os processos criativos e produtivos, mais ainda precisamos considerar com respeito essa realidade que comumente se camufla em matrimônios infelizes – a começar do sofrimento causado pela própria “traição” sexual – ou numa sequência de casamentos incompletos, que poderiam ser complementares e simultâneos, e não alternativos ou substitutivos.

(BTA) – Sei que você não está defendendo a postura de alguém que ocultamente se entrega à experiência extraconjugal, enganando o(a) esposo(a) com quem estabeleceu o pacto da monogamia.

(ERD) – Não. Embora, no passado e no presente, muitos(as) sejam levados(as) à vivência escondida da dúplice conjugalidade, jamais aprovaríamos essa conduta. O correto é, como fez Jung numa cultura completamente avessa a essa proposta, que o(a) poliamorista se abra com o cônjuge de viés monogâmico, falando de sua necessidade e natureza psicológica. Cabe ao(à) consorte que ouça o “desabafo” concordar ou não, optando por romper a relação se for o caso.

Sem espaço a hesitação ou negociação, a honestidade e o respeito aos sentimentos de todos(as) os(as) envolvidos(as) devem presidir a gerência do melindroso mecanismo de um eventual ajuste ao, digamos assim, triângulo amoroso.

Por sinal, no tocante a essa configuração poligâmica muito comum em diversos povos e épocas, é bem frequente que só uma pessoa tenha o perfil para a duplicidade conjugal, enquanto as outras permanecem fiéis à inclinação de se relacionarem sexualmente com um único indivíduo.

(BTA) – Ufa! Acho que você e eu (risos sem graça) lançamos bastante lenha na fogueira deste debate. Espero que tenha ficado satisfeito com minha abertura a repensar meus pontos de vista.

(ERD) – Sem dúvida. Que nossas reflexões produzam efeitos semelhantes em parte do público. Reforcemos, mais uma vez, contudo: não estamos recomendando que os(as) leitores(as) apliquem essas proposições a sua vida e redefinam seu compromisso marital. Referimo-nos, aqui, à pluralidade de psicotipos humanos, no âmbito de uma sociedade democrática, que deve pugnar, fervorosamente, por garantir a cada ser humano o direito de existir e de ser respeitado por quem é.

(BTA) – Obrigado pelos toques, Roberto.

(ERD) – Grato igualmente pela oportunidade de servir. Que a Divina Misericórdia nos toque os corações empedernidos, para que não nos assemelhemos aos(às) inimigos(as) de Jesus, aos(às) religiosos(as) pervertidos(as) dos Evangelhos, como aqueles homens interessados em matar a pedradas uma pobre mulher pega em adultério… uma mulher que, em verdade, estando muito à frente de seu tempo, decidira amar um parceiro por escolha de seu coração, e não por indicação de seu pai ou de outros tutores masculinos de sua família.5

(BTA) – Assim seja. Assim façamos por merecer.

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
em diálogo com Roberto Daniel (Espírito)
31 de julho de 2026

1. Nem sempre um(a) médium vê ou ouve o espírito com quem interage. Vários canais psíquicos podem ser ativados, enquanto se desdobra, como foi o caso, a psicografia, que constitui um desses meios de intercâmbio espiritual. Durante um transe mediúnico, costumam acontecer oscilações num ou noutro “sinal mediúnico”, sem prejuízo para a mensagem. Médiuns honestos(as) e que tenham conhecimento razoável de si, porém, sempre sabem quando estão se comunicando ou não com outro ser. E amiúde a consciência do realismo do fenômeno se dá de modo tão concreto, que se lhes afigura quase como uma ligação digital em tempo real, em áudio ou vídeo. Com base na mesma analogia, uma outra pessoa encarnada no ambiente pode não ver nem ouvir os(as) interlocutores(as) espirituais, seja porque a tela do dispositivo eletrônico lhe escape ao campo visual, seja porque a comunicação ocorra com o uso de fones de ouvido.

2. Leitores(as) mais atentos(as) podem estranhar que os espíritos do bem não utilizem vocativo ao conversarem comigo. Para que ninguém interprete mal essa atitude deles, cabe um esclarecimento: a maior parte das personalidades relativamente amadurecidas não gosta de se referir a si pelo próprio nome. Escrevendo por meu intermédio, esses seres sensatos e altamente desenvolvidos têm o cuidado de não ferir meus sentimentos.

3. O “Núcleo Geratriz”, como o Espírito Eugênia-Aspásia denomina nosso lar, nossa “colmeia” de produção mediúnica por ela presidida.

4. Essas ponderações do inteligentíssimo Roberto Daniel parecem-me de grande profundidade e impacto, demandando reflexão e estudo.

5. João 8:3-11.