
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Eugênia-Aspásia (Espírito)
Estávamos em meados da década de 1960. Estruturávamos cálculos finais de probabilidade quanto ao andamento da obra de canalização de nossa fala de supraordenação esclarecedora e benevolente, no transcurso do século 21.
Havia perigos e desafios tremendos a serem faceados, contornados e/ou vencidos, e o companheiro que nos representaria, como médium, reverberando esse discurso inadiável, numa era apocalíptica, precisaria de estímulos adicionais, para não abrir falência do ânimo e, com isso, adoecer gravemente, retornando à pátria espiritual antes do tempo programado. As adversidades seriam enormes, numa época que sabíamos seria pervagada de cinismo, narcisismo e desesperança generalizados.
Tive então a ideia – auxiliada e apoiada por alguns dos especialistas em programação existencial envolvidos no complexo planejamento reencarnatório de centenas de pessoas – de incluir um antigo familiar do professor Gerard, uma figura filial que lhe fora muito cara quando estivera encarnado na Europa nórdica, na condição de integrante de pequena “família real”, por assim dizer – em verdade: alguém próximo a um líder tribal relativamente bem-sucedido em sua sanha conquistadora.
Para ser mais precisa, procuramos dois espíritos que foram pupilos muito estimados do professor de espiritualidade na iminência de renascer na matéria densa: dois homens que foram irmãos biológicos naqueles tempos recuados, que foram adotados pelo coração de Gerard, que lhe serviram, originalmente, como seguranças pessoais. Gerard, entretanto, rapidamente nutriu, por ambos, cálidos sentimentos de responsabilidade, ternura e cuidado bem típicos de pais com coração.
Apenas um dos dois irmãos estava incluso no plano de missão de grupo, porque o outro ficaria em nossa dimensão espiritual, dando suporte ao professor, desde o berço. O segundo seria enviado às labutas no mundo material, quando o século 21 estivesse em curso.
Um deles era a corporificação do homem lacônico, tão leal quanto silencioso. O seu duplo espiritual era o inverso: falante e emotivo, embora fosse igualmente dotado de espírito de serviço e respeito à autoridade.
Aproximei-me do que se sentia em dívidas morais mais profundas e sentidas para com Gerard, o mais comunicativo, e lhe indaguei:
– Está sabendo que seu tutor está para reencarnar?
– Oh, sim, sim. E estou muito feliz que tantos espíritos estejam sendo destacados a participar dessa empreitada tão importante para o bem comum…
– Que acha de participar desse projeto? Lembrei-me de vocês dois. Mas somente um poderá ser enviado para compor o quadro de amigos e alunos em torno de Gerard…
O jovem marejou os olhos e, com voz embargada, disse:
– Para qualquer função ou atividade!… Ficaria muito agradecido e feliz por participar de qualquer modo!… Ainda que a “senhora” me coloque na posição mais periférica no trabalho que se desdobrará em torno daquele a quem devo tanto!…
E as lágrimas o impediram de prosseguir. Aproveitei, dessarte, para completar:
– Quero pô-lo em círculo bem próximo a Gerard, para a sustentação mediúnica das tarefas que serão executadas por intermédio dele.
O rapaz continuou comovido, sem conseguir articular palavra, meneando a cabeça afirmativamente para o que eu lhe dizia. Esperei que ele se recompusesse. Ao fim de alguns segundos, o antigo “guardião”, que ainda preservava a aparência ancestral do guerreiro nórdico, balbuciou:
– Não tenho como colocar em palavras a extensão e a profundidade de minha alegria e de minha gratidão!…
O irmão, que prosseguia silente, abaixara o rosto. Estava também emocionado e, aqui ou ali, enxugava, discretamente, as lágrimas que escorriam por suas faces. Tornei ao gêmeo “falante”:
– Você sabe que muitos dos que partirão daqui, neste crítico projeto de interesse coletivo, se comprometerão a fazer o melhor e, quando imergirem no mundo das formas e das ilusões, hipnotizados por forças da desagregação, não resistirão ao teste… e desertarão?
– Sim, e isso me apavora!…
Confortei-o:
– Não lhe faltará Inspiração Divina para que acerte. Contudo, serão imprescindíveis disciplina, vigilância e respeito às suas intuições do que houver, por aqui, programado e prometido a fazer por lá.
– O que for necessário! Por favor, o que pode ser feito para que eu não caia e dê as costas a essa graça tão preciosa para meu carreiro evolutivo? Ajudar, diretamente, a uma obra que inspirará tantos milhões de pessoas, no Brasil e no exterior, nas mãos do meu tão estimado tutor espiritual!? Que maravilha e, ao mesmo tempo, que horror a perspectiva de uma queda eventual!…
Não me fiz esperar:
– Recomendo, enfaticamente, que ouça Gerard, com atenção, abertura e humildade. Guarde bem isso no seu coração, porque estaremos muito ligados a ele, e a bênção de Maria Santíssima estará sobre sua função de médium psicofônico. Em complemento a isso, Gerard tem perfil agudamente franco e firme. Com quem convive em sua intimidade, então, ainda mais ele costuma ser honesto e claro, de um modo bem doloroso para o ego, mas bem generoso, sob a ótica da consciência. Muitos, porém, cairão na tentação de se “defenderem” de sua franqueza sem muita polidez, externada sempre que um erro grave é cometido por alguém.
Reflexivo, o combatente de outrora respondeu-me:
– Farei o possível. Pelo meu histórico na relação com ele, noutras vidas, pelo que tenho estudado nas recapitulações de memória a que tenho me dedicado, tenho sido receptivo e respeitoso com o professor Gerard, pelo menos desde a época de nosso encontro-marco no período das “navegações nórdicas”. Então, creio que não seja fantasioso supor, mesmo quando estiver aprisionado num cérebro novo, sem as lembranças de cá, que serei dócil às suas advertências. Mas temo pela minha antiga inclinação à teimosia no prisma mental do ego. Temo que ele desista de mim, que eu me torne cansativo demais para alguém que já estará sobrecarregado com uma multidão a educar…
Respondi-lhe:
– “Eis então a notícia boa que posso lhe trazer, meu filho. Sua ponderação autocrítica é válida, mas converge na direção de uma das feições mais nobres de Gerard. Em contraste curioso com seu pendor psicológico e moral à severidade quando algo sério ocorre, ele preserva consigo forte propensão à indulgência. Basta que um de seus alunos demonstre sinais de mudança ou, pelo menos, de desejo sincero de mudar, para que ele corra a esquecer o que de ruim haja acontecido e a conceder novas chances de ação, interação e aprendizado.
Ele é muito sensível ao arrependimento genuíno e, para quem coopere diretamente com ele, mostra-se invariavelmente muito atento aos indícios de lealdade e de disposição persistente em cooperar e ser útil. Foi por notar em você significativa probabilidade de acertar nesses fatores que decidi convidá-lo a compor o quadro dos colaboradores mais próximos dele.”
Meu interlocutor tornou a se debulhar em lágrimas. Não demorei, assim, a prosseguir em meu chamado aos labores reencarnatórios:
– Você será orientado por instrutores de nosso Plano de Consciência sobre particularidades importantes de seu processo palingenético. Para aumentar sua probabilidade de êxito nessa missão encarnatória, adiantei uma solicitação: que você só retorne à crosta planetária num mínimo de três décadas após o renascimento de Gerard, de modo que a diferença de idade lhe inspire a natural atitude de respeito que, embora bem enraizada em seu coração, no que tange ao nosso médium, será fortalecida pela vívida distinção de faixa etária.
A essa altura de nossa conversação, o ex-viquingue levantou os olhos:
– Oh, que pena! Foram sempre tão dolorosas nossas vivências de separação em outras reencarnações! Terei que suportar novamente a perda do contato com ele, pela morte, e sobreviver longos anos no campo das sombras, sem a presença dele?
– É um preço com o qual você terá que arcar, para que suas chances de queda diminuam drasticamente.
O soldado ariano fez uma expressão de alívio e resignação e, como quem buscasse algo importante de que se recordar, não se acanhou em falar:
– Posso pedir um pouco de proteção, no quesito da aparência física?
– Sim. Você estará encoberto sob tez amorenada.
– Só isso?
– Sim. Não está incluso, em seu mapa de necessidades cármicas para o presente, suportar a cruz do ódio racial.
– E o que a “senhora” pode mais fazer por mim, para garantir meu sucesso espiritual?
Sorri complacente:
– O senhor não tem muito acanhamento em fazer pedidos…
Ele arregalou os olhos e, estendendo as mãos em minha direção, disparou imediatamente:
– Perdoe-me! Estou sendo ingrato e injusto!
– É direito seu… – respondi, ainda sorrindo – e é meu dever lhe conceder apenas o que posso e o que seja autorizado de Mais Alto. Tranquilize-se, no entanto. As estruturas do afeto familiar bem sedimentado entre você e o professor Gerard, na minha opinião, constituem barreira importante contra ataques dos agentes do mal e instrumento indestrutível de conexão com a Faixa Psicoespiritual do Bem.
O rapaz enterrou o rosto nas mãos espalmadas, num misto de emoções, e aproveitei para dizer, solenemente:
– Regozije-se, bravo guerreiro de antanho! Você será enviado à superfície da Terra, mais uma vez ao lado de seu antigo protetor, em missão relevante de suporte a ele, que será responsável pelos corações e destinos de multidões e comunidades inteiras! (*)
O diálogo continuou por alguns minutos, e tangenciamos assuntos que não compõem as necessidades desta publicação.
Salve a Misericórdia Divina, que une os antigos afetos, em novas vilegiaturas pelo solo duro do orbe terreno, para que missões de sabedoria e amor possam ser concretizadas, a contento, em prol do bem comum e da salvação desta tão empedernida civilização planetária.
(Psicografia recebida em 30 de agosto de 2026.)
Nota do Médium:
(*) A veneranda orientadora espiritual Eugênia-Aspásia, no momento de proferir essas palavras, “explodiu” em irradiações luminosas, ante o jovem contrito e seu “gêmeo” espiritual, em função das elevadíssimas vibrações de que se permitiu impregnar, manifestando-se, de modo mais pleno, como a grande profetisa e canal de Autoridades do Plano Sublime de Vida. Digo isso porque é dado ao médium, em certas circunstâncias, acompanhar visualmente o que está sendo narrado por seu intermédio – pois bem: foi o que vi. Por outro lado, a mestra espiritual, em sua natural humildade, não incluiria, em seu relato, essa particularidade que revela um pouco de sua expressiva envergadura evolutiva.
