
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Em diálogo com Roberto Daniel (Espírito)
(BTA) – Roberto, você está aqui? Percebo sua aproximação mental. Estou certo?
(ERD) – Sim, estou aqui(1).
(BTA) – Bom dia. Há muito tempo estava na sala mediúnica?
(ERD) – Estou frequentemente. Trabalho aqui(2). Mas entendo o que quis perguntar. Estava há alguns dias, como notou, aguardando oportunidade de interagir com você, de modo mais objetivo, por meio de um diálogo, se possível.
(BTA) – Parece que estou disponível… Intuo isso. Eugênia e outros mestres espirituais autorizam esse nosso trabalho, pelo que percebo.
(ERD) – Sim.
(BTA) – Estou às ordens. Que tema você crê seria “motor” para nossa conversa? E ela será pública?
(ERD) – Em ordem inversa de resposta às duas indagações: sim, nosso intercâmbio tem como objetivo produzir peça à publicação. E o tema que trago é o do casamento não monogâmico.
(BTA) – Ok.
(ERD) – Você falou recentemente que tem inclinação a compreender a existência de relacionamentos poliamoristas como um fenômeno que deve ser aceito com respeito, mas que os considera sinal de imaturidade psicológica dos envolvidos. E, secretamente, também supõe ser esse gênero de dinâmica relacional oriunda de feridas psicológicas sérias nos participantes.
Pois bem. Discordamos — eu e um conjunto de espíritos na minha faixa de entendimento. Embora haja aqueles casos em que pessoas marcadas por traumas inomináveis (da infância, mormente) inclinem-se a vivências sexuais que traduzam seus sentimentos de baixo autorrespeito, existem, de fato, situações mais complexas, cármicas mesmo, no que tange ao paralelismo conjugal, em teias familiares bastante intricadas(3).
(BTA) – Nossa… que controverso… e interessante.
(ERD) – Você pode continuar com sua opinião. Disse que estou representando uma faixa de espíritos, não a totalidade da Comunidade dos Espíritos dedicados ao bem. Nossa mestra espiritual Eugênia-Aspásia e o Conselho de espíritos que Ela representa solicitaram, todavia, que eu partilhasse minhas impressões sobre o tópico, para provocar reflexões na fronteira do que, segundo os moldes das convenções no domínio material de vida, se pode considerar algo como ético, justo e bom.
Esses temas são delicados e a Divina Sabedoria deixa a porta aberta ao debate, para que os indivíduos amadureçam não só na troca de ideias contraditórias, como também na permuta de experiências vividas. A cada alma, no livre gozo de seu discernimento, cabe avaliar o que julga certo ou não.
Devo, entretanto, lembrar que não vai longe o tempo em que LGBTs eram universalmente vistos como aberrações da natureza, criminosos aos olhos dos homens, abominação aos Olhos de Deus. Também é recente o debate se o divórcio seria alternativa decente à vida de pessoas em tormentos da conjugalidade. Igualmente, temos poucas décadas de abertura pública ao prazer sexual feminino, mesmo em mulheres casadas. Há pouco tempo, outrossim, esperava-se, em toda parte, que houvesse virgindade de todas as solteiras e a “distinção” de viúvas em não tornarem a contrair núpcias.
É bom lembrar que ainda hoje, por todo o globo, há rincões em que esses preconceitos tão retrógrados são norma, e, em muitos países e grupos étnico-religiosos, configuram crimes cominados em lei, amiúde passíveis de pena capital.
(BTA) – Como é incômodo ser cutucado nessas opiniões que nos são caras… Elas nos parecem certezas, entretanto. E o pior é que queremos impor a todo mundo, não é?
(ERD) – Sim, há essa tendência humana, cheia de justificativas, que dão contornos de princípio intemporal ao que, definitivamente, é condicionado por mentalidade de época, cultura, lugar, perfis psicológicos e nível moral de quem esteja envolvido, numa dada circunstância analisada. Por isso, afirmei que você e quem nos ler podem continuar com sua perspectiva inalterada sobre o tema. Por outro lado, abrir-nos a falar sobre possibilidades é indicativo de grau mais elevado de maturidade psicológica e, por conseguinte, de evolução espiritual.
(BTA) – Eu sei que você jamais estaria propondo que a vocação à monogamia seria algo atrasado ou que revele menos desenvolvimento de alguém.
(ERD) – De modo nenhum. Há expressivo percentual, nos contingentes populacionais terrícolas, de indivíduos inclinados à monogamia e que muito se refinam, moralmente, em sua honrosa vivência de disciplina emocional e afetiva.
(BTA) – Nem tampouco você está postulando o sexo livre, o casamento aberto ou a promiscuidade.
(ERD) – Jamais. Essas são características de pessoas, de fato, pouco desenvolvidas na área afetivo-sexual, algumas delas viciadas em hedonismo contumaz, confundindo modernidade com degradação da dignidade humana, criaturas que se comprazem com o rebaixamento do espírito ao patamar dos brutos.
(BTA) – Em adição, vou ajudá-lo, jogando lenha no fogo desta caldeira de elaboração de ideias. Quero romper minha limitação de percepção e concepção. Lembrei-me de Jung, gênio extraordinário da psiquiatria, que era assumidamente polígamo.
(ERD) – Bem lembrado. O que houve de excepcional em Jung, diria mais, foi sua disposição, coragem e idealismo em registrar por escrito essa sua tendência. A história, no entanto, está repleta de exemplos de grandes realizadores, dos dois gêneros e de qualquer orientação sexual, que revelaram tendências à intimidade romântica não monogâmica. E, sendo a energia da (como foi denominada por Freud) libido, sumamente importante para os processos criativos e produtivos, mais ainda temos que considerar com respeito essa realidade, camuflada, muitas vezes, em matrimônios infelizes (na tristeza da “traição” sexual) ou em sequência de casamentos incompletos (porque eram para ser complementares e simultâneos e não alternativos ou substitutivos).
(BTA) – Sei, Roberto, que você não está defendendo o ato em si de enganar alguém no pacto da monogamia, com a experiência extraconjugal oculta.
(ERD) – Não. Embora, no passado e no presente, muitos sejam levados à vivência escondida da dúplice conjugalidade, jamais aprovaríamos essa conduta. O correto é, como Jung fez, numa cultura completamente avessa a essa proposta, que o poliamorista se abra com o cônjuge de viés monogâmico, falando de sua necessidade e natureza psicológica. Cabe ao parceiro que ouça o “desabafo” concordar ou não, romper a relação se for o caso. Nossa tese é de que, sem espaço nenhum a hesitação ou negociação, a honestidade e o respeito aos sentimentos de todas as partes envolvidas devem presidir a gerência do melindroso mecanismo de um eventual ajuste, digamos, a um triângulo amoroso. Por sinal, nesta última e muito comum configuração poliamorista, que repleta de exemplos a cultura de todos os povos e épocas, é bem frequente que só uma pessoa tenha o perfil à duplicidade conjugal, enquanto as outras podem permanecer fiéis à sua inclinação de se relacionarem sexualmente com um único indivíduo.
(BTA) – Ufa! Acho que você e eu (risos sem graça) lançamos bastante lenha na fogueira deste debate. Espero que tenha ficado satisfeito com minha abertura a repensar meus pontos de vista.
(ERD) – Sem dúvida. Espero que esta nossa reflexão venha a ter resultado semelhante em parte de nossos leitores, reforçando, mais uma vez, que não estou afirmando que alguém deva aplicar o que propugnamos à sua própria existência e ao seu compromisso marital. Referimo-nos, aqui, à pluralidade de psicotipos humanos, numa sociedade democrática, numa cultura que é rica em sugerir a reflexão em torno da existência de tipos humanos diferentes e, concomitantemente, fervorosa em pugnar pelo direito de todo ser humano existir e de ser respeitado por quem é.
(BTA) – Obrigado pelos toques, Roberto(4).
(ERD) – Grato igualmente pela oportunidade de servir. Que a Divina Misericórdia nos toque os corações empedernidos, para que não sejamos como aqueles religiosos pervertidos, registrados no Evangelho, inimigos de Jesus, interessados em matar a pedradas a pobre mulher pega em adultério… Uma mulher que escolheu amar um homem por escolha de seu coração, e não por indicação de seu pai ou de outros tutores homens de sua família.
(BTA) – Assim seja. Assim façamos por merecer.
(Diálogo mediúnico travado em 31 de julho de 2026.)
Notas do médium:
(1) Nem sempre um médium vê um espírito com quem interage. Há vários canais psíquicos a serem ativados, enquanto há, como foi o caso, a psicografia, que constitui um desses canais. Um médium pode ver ou ouvir um espírito, enquanto interage com ele, e ainda pode acontecer uma oscilação num ou noutro “sinal mediúnico”, digamos assim, sem prejuízo para a mensagem. O médium honesto e que tenha um conhecimento mínimo de si, porém, sempre sabe se está em comunicação ou não com outra “inteligência”, outro ser. Está cônscio disso, amiúde de modo tão real, como quem faz uma ligação digital, em tempo real, em áudio ou vídeo, mesmo que outra pessoa, ao seu lado, não veja o interlocutor à distância (por a tela do dispositivo eletrônico utilizado estar fora de seu alcance visual) ou não o ouça (por a comunicação estar ocorrendo com fones de ouvido).
(2) O “Núcleo Geratriz”, como o Espírito Eugênia-Aspásia denomina o nosso lar, por ser uma colmeia de produção mediúnica presidida por Ela.
(3) Achei essas ideias do inteligentíssimo Roberto Daniel de grande profundidade e impacto, demandando reflexão e estudo.
(4) Para alguém mais atento, pode causar estranheza que os espíritos com quem interajo não utilizem o vocativo, enquanto conversam comigo. Esclareço, a fim de que ninguém interprete mal a atitude dos espíritos do bem. A maior parte das pessoas minimamente amadurecidas não gosta de se referir a si pelo próprio nome. Escrevendo por meu intermédio, esses seres sensatos e maduros têm o cuidado de não ferir meus sentimentos.
