2004… Estamos entrando no quarto ano do século XXI – dá p’ra acreditar? Quarto ano do Terceiro Milênio da Era Cristã… O que você fez do ano que passou? Como estão suas reflexões sobre as grandes questões de significado e aproveitamento de sua existência na Terra?

Tenho me recordado muito de 1984. Parecia ser o último desdobramento do futuro: o ano depois do qual nada mais parecia poder existir. Não por acaso, foi título de romance clássico ficcional, que, embora de forma grotesca, lançou a ideia do “Big Brother”.

1984 foi um ano marco para mim. No dia 1° de outubro, menos de um mês antes de completar 14 anos, escreveria uma redação marco em minha vida, com o tema insólito: “Eu”. Descasquei-me horrivelmente, em termos de análise psicológica e, impiedosamente, vi-me como portador de todas as deficiências humanas e quase nenhuma virtude (fiquei feliz ao, mais tarde, saber que até São Pedro via-se assim: à época, pensei que fosse de fato um monstro).

Em novembro daquele ano, vi-me exclamando para meus botões em voz alta, como era impressionante estarmos já em 1984, e dois colegas que acompanharam meu solilóquio partilhado riram-se de mim, após se entreolharem. Bem… um já está morto e outro é um fracassado em suas experiências de vida. Por que pensar parece tão tolo para os tolos? Essa inferência pode soar óbvia, mas não é. Porque os tolos sensatos – se é que podemos dizer assim (ou os tolos menos tolos) – pressentem quando estão diante de alguém mais maduro e não debocham do que não compreendem. Quanto aos estúpidos presunçosos… céus! Que natureza medonha e deplorável num ser humano, lamentavelmente tão comum!… Bem… pior para eles, porque pagam na própria pele as consequências de sua imbecilidade.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Em novembro do ano passado, passei por uma crise estranha. Curiosas dispnéias roubaram-me o sono diversas vezes (diagnosticadas como asma), e via-me com a clara sensação de morte, semelhante ao que se poderia traduzir por súbitos surtos de “síndrome do pânico”. Todavia, sabia que não se tratava da famosa síndrome. Aos 2 daquele mês, a mentora espiritual Eugênia me apareceu, acompanhada pelo projetista genético desencarnado do corpo que atualmente uso, e, então, disse-me que acabara de atravessar um ponto de ruptura em meu planejamento existencial, em que poderia ter acontecido, eventualmente, minha desencarnação, coisa que ocorreria, mais duas vezes, em espaços de aproximadamente trinta anos entre elas, até que, por fim, na quarta, haveria meu inevitável desencarne. Os três primeiros pontos seriam de morte provável, de acordo com minha conduta e andamento do projeto existencial que me foi confiado. O último, a inexorável partida para outra dimensão de vida, não necessariamente muito tempo após o 3° nódulo de destino, digamos assim, que aconteceria por volta de meu 90° aniversário. Ouvi com atenção o que Eugênia me disse, mas marcante mesmo achei o que aconteceu comigo no dia 1° de janeiro deste ano que se finda. Vi-me por mais de 15 minutos totalmente incrédulo de que houvera chegado ao ano de 2003 e achando profundamente estranho que estivesse vivo no corpo, neste ano, como se fosse algo realmente improvável ou não garantido. Uma sensação oceânica de felicidade e gratidão me invadiu, e agradeci, por diversas vezes, a Deus, a oportunidade de estar vivo em… nossa que pasmo eu sentia!: 2003. Nunca, nem mesmo na adolescência, quando dava profunda importância a esses marcos convencionais do calendário, senti algo similar. Sentia-me, por aqueles dias da puberdade, excitado com a sensação de participar de “um momento histórico”(dizia muito isso na minha casa de 12 anos), mas jamais a sensação de gratidão por poder estar vivo naquela data.

Pois bem, aqui estamos nós, na iminência de adentramos mais um ano a ser vivido. Gostaria que todos pensassem dessa forma, porque, em tese e a rigor, ninguém pode ter garantida sua estada na Terra, por nem sequer um dia. Em vez de nos lamentarmos pelo tempo que se vai, temos que sempre agradecer pela oportunidade de viver mais outras oportunidades e, assim, sentirmo-nos felizardos por usufruir de uma existência física no planeta, dádiva extremamente preciosa, invejada por massas incomensuráveis de espíritos carentes de progresso e realizações.

Em 1999, no mês de agosto – estava há dois meses de completar 29 de idade – pela primeira vez gozei dessa maravilhosa sensação de gratidão profunda pelos anos vividos. Nunca me senti tão “velho” e feliz exatamente por isso. O filho de uma amiga querida, com apenas nove anos, desencarnou repentinamente, no dia do próprio aniversário. Ele tinha exatos vinte anos menos que eu. Nossa! Poderia ter sido eu ou qualquer pessoa a desencarnar com aquela idade! Houvera já vivido vinte anos a mais que ele no plano físico: aprendendo e lutando por me melhorar e realizar no campo do bem – que dádiva inapreciável de Deus era aquilo! Relembrei-me, então, de mais outras colegas, de minha turma de colégio, que não estavam mais entre nós (ao todo, hoje, quatro). E me senti extremamente feliz por poder ter chegado aos 29.

Hoje, estou aos 33. E imagino que felicidade será poder dizer, na medida do que o Poder e a Sabedoria Divinos permitirem, que vivi 63, 73… quem sabe 93 anos nesta atual reencarnação… (a Medicina moderna poderá ajudar muitos de minha geração a passarem muito desse teto etário). Atualmente, na cultura do culto esquizofrênico à juventude eterna (esquizofrênico porque a vida é indissociável do envelhecer), as pessoas têm medo de completar anos, de envelhecerem… Trata-se isso de um verdadeiro delírio, uma total alienação da realidade: quem atinge idade provecta viveu muito; é um abençoado, já que muitos não chegam a esse ponto, porque perderam o dom do corpo material, antes de alcançarem tais alturas de experiência.

É bem verdade que apenas o punhado de anos, em termos portanto quantitativos, não valem nada ou quase nada, isoladamente. Precisamos viver com mais gosto, com mais qualidade, com mais consciência, com acerto de contas contínuo com nosso ideal e a voz da vocação, realizando sonhos e objetivos de vida, na medida do ético, do sensato e do possível. Mas que ninguém tenha medo do tempo, pois que ele pode ser nosso melhor amigo, se formos verdadeiros amigos de nós próprios. Quem é displicente e negligencia o fundamental: cuidar de si mesmo e de seu aprimoramento pessoal, pela realização contínua do melhor, cedo ou tarde faceará um juiz implacável em que o tempo se terá convertido.

Hoje, nos ambientes mais esclarecidos, quando alguém morre antes dos 80 anos, rimos ao dizer, mas não conseguimos resistir, porque se tornou um fato, para os padrões modernos de longevidade: “Nossa… que lamentável: morreu tão novo!” Há cento e cinquenta anos, a França, meca do progresso e da cultura, ostentava uma expectativa média de vida de 36 anos. Esse esticamento da estada em organismos no plano físico é, de fato, uma surpreendente e maravilhosa conquista da humanidade, resultante do sanitarismo, dos hábitos de higiene, da alimentação de melhor qualidade e dos avanços da farmacologia e da Medicina de um modo geral.

Em 2063 estarei, se a Divina Providência permitir, completando meu 93° aniversário. Lá, alguns dos meus leitores mais jovens estarão testemunhando esse aniversário (provavelmente os nonagenários de lá assemelhar-se-ão aos septuagenários de hoje, não só em termos de aparência, mas principalmente em termos de nível de preservação das funções orgânicas). Outros, estarão desencarnados, para presenciar o evento, do outro lado da vida, ou terão ultrapassado a hoje excepcional faixa dos 100 anos, não tão rara em futuro próximo, como garantem, categoricamente, os grandes cientistas da gerontologia e da geriatria contemporâneas. Ajamos, porém, agora, de modo que, quando chegarmos a essas alturas impressionantes de idade cronológica, tenhamos amadurecido igualmente no plano psicológico, de forma que possamos ser considerados felizes e serenos anciães sábios e não rebotalhos velhos de frustrações e arrependimentos. O futuro já existe agora, em semente: as sementes de nossas escolhas e decisões, posicionamentos e disciplinas, que nos marcarão um futuro longo e feliz, ou curto e desastroso…

Fazer tais reflexões já idoso, como tantos jovens incautos preferem fazer, procrastinando indefinidamente a meditação em torno do essencial, é programar-se para o pior. Começar a se planejar desde cedo é a garantia de melhorar as próprias chances de uma vida produtiva, feliz e realizada. O fim da existência física não é o momento para realizar o que deve ser feito quando temos muita energia e tempo; mas apenas o instante para o acabamento final de uma obra longamente construído no correr dos longos anos da juventude e da maturidade. Quem gasta seu corpo jovem em futilidades, não deve esperar um futuro muito feliz para os dias mais difíceis do corpo. Pense bem, principalmente se é jovem. Pense mais seriamente ainda, se não é tão jovem, para se compensar pelo tempo perdido. Comece agora e permaneça na nova atitude de excelência no aproveitamento existencial. Agora… ou talvez apenas tarde demais descubra, que lançou a própria vida pelo ralo… e que só lhe restará esperar pela morte… e, depois de séculos indefinidos, a chance de uma nova reencarnação… nas quilométricas filas de descida ao plano físico, o campo para as mais importantes realizações evolutivas dos seres em nível humano de consciência.

Benjamin Teixeira de Aguiar
25 de dezembro de 2003.