Frutas estragadas revelaram, a antepassados remotos, o mistério do vinho e suas implicações psicológicas de alteração do padrão de consciência, apesar do sabor amargo, travoso, que repelia da descoberta muitos dos eventuais descobridores de seus efeitos: da bebida dos deuses, como cognominaram, os antigos gregos, o vinho.
Leite apodrecido apresentou antigos ascendentes nossos ao queijo, assim como o enorme desconforto do transporte do líquido precioso, por região pedregosa, fez aparecer, com o muito mexer e o calor do traslado, as primeiras expressões rústicas da manteiga.
A vida, amiúde, afigurar-se-lhe-á azeda, como o leite passado ou como frutas estragadas. Pense em extrair, assim, dessas experiências, o leite ou o licor magníficos que lhe são ofertados, generosamente, pela vida, em forma de sabedoria, maturidade psicológica e fortaleza emocional.
Se a comida fosse oferecida sempre crua e sem condimentos, nunca se poderiam atingir os refinamentos da culinária moderna. Do mesmo modo, observe que você é a sua própria comida consciência que haverá de degustar. Sua estrutura psicológica é retemperada e misturada a viandas, acepipes e quitutes culturais e experienciais de todas as ordens, por determinação evolutiva da Divina Providência, a fim de que se enriqueça de sabores emocionais e intelectuais mais aprimorados.
Não espere simplicidade exagerada da vida. O afã pelo retorno às origens, embora com forte colorido pseudo-nobre, é, de certa maneira, resultado de reação à complexidade atordoante do mundo moderno. Mas o nível evolutivo de determinado estágio civilizatório não pode ser ignorado; é, por assim dizer, irreversível. Portanto, ao reverso de lutar contra o inexorável, que se procurem criar adaptações inteligentes, criativas, do que existe de fundamental, internamente, com o que existe de real, externamente, em termos de circunstâncias inelutáveis, para que, então, possa-se fazer um lauto banquete de experiências de vida.
Você pode ficar com os primitivos homens de antanho que se recusaram a provar do queijo, da manteiga ou do vinho, ficando com padrões rudimentares de paladar. Ou pode acelerar seu aprendizado e abrir-se aos magníficos licores da vida, assim complexificando seu modo de pensar, sentir, agir e interagir com o mundo. Abrir mão das resistências egoicas à evolução e participar, deliberadamente, do processo de contínua transformação para melhor é sempre mais sensato. Nadar contra a correnteza é tão estúpido quanto pretender manter-se estático, num universo dinâmico, como o das modernas sociedades humanas da Terra.
A escolha, portanto, é sua. Ser feliz, ainda que tomando sustos e surpresas quase ininterruptos, na aventura magnífica do contínuo progredir; ou lutar, ensandecido, contra os oceanos da vida, para que a própria pequena canoa, em alto-mar revolto, permaneça estável e imóvel.
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Eugênia-Aspásia (Espírito)
14 de dezembro de 2003