Benjamin Teixeira de Aguiar − Prezados amigos espirituais, gostariam de dizer algo à coletividade?
Espíritos Incógnitos − Que aprendam a viver no clima da incerteza. Mentes maduras admitem e vivem o caos sem se desestabilizarem. Assim, podem auferir estímulos e substratos para a criatividade, mantendo-se, paradoxalmente, com os pés assentados no chão da realidade.
BTA − O que vocês falam parece dúbio, senão contraditório.
EI − Sim. Explicando-nos: mentes menos amadurecidas, ao contactarem algo que não compreendem, porque não estão preparadas para compreender, ao reverso de admitirem sua incapacidade ou ignorância, logo tratam de enquadrar a nova informação em velhos esquemas gnoseológicos, ao custo de distorcê-la e, portanto, invalidá-la.
BTA − Então…
EI − Deve-se começar por observar cada evento, cada pessoa e cada coisa em sua absoluta singularidade, sem imediatamente pretender encontrar rótulos e classes para sua existência e função no mundo. O exagerado gosto por associar e comparar, da mente humana, faz com que se percam as maiores oportunidades de crescimento, descoberta e transcendência. Enquanto a taxionomia substituir a ontologia, os indivíduos não conseguirão ver além das aparências.
BTA − Extremamente profundo.
EI − Tudo que é, é. Não pode ser raso, ou não é: apenas está. Descobre-se, na superfície, a circunstância e não a substância, a aparência e não a essência.
BTA − Nossa… E o que vocês sugerem se faça para que vejamos as coisas como elas realmente são e não como gostaríamos ou supomos que sejam, projetando, assim, nossas realidades internas no mundo exterior?
EI − Que parem e observem… observem mesmo. A observação deve ser meditativa. A testemunha deve adotar uma perspectiva de ausência de pré-concepções. Para isso, deve suspender, ainda que por alguns momentos, a atividade ininterrupta e delusória da “mente intelectual”, a mente lógico-analítica que, como uma máquina, automaticamente computa, conecta e associa, como se percepções fossem objetos sólidos e inanimados e não realidades vivas, fluidas, indefiníveis, mutáveis, eternas… em interações complexíssimas com a própria mente observadora e os seres observados. Deve-se sair do nível de consciência meramente associativo-analítico e adentrar o padrão da percepção pura dos fatos. Isso leva tempo e, em termos absolutos, inclusive, é impossível para o nível de consciência hominal.
BTA − Então, isso exige uma mente profundamente treinada…
EI − Exatamente, e em dois sentidos: treinada a observar além das aparências e a observar a si mesma, além dos pressupostos de identidade e papéis sociais e culturais impostos desde a infância, pela educação. Em suma: o conhecimento depende de bom autoconhecimento. Quem não se conhece, facilmente projeta, fora de si, o que é idiossincrasia sua e não uma singularidade externa. Além do quê, o autoconhecimento tem dois níveis: o conhecimento da condição humana, de que todos participam, e o conhecimento da condição personalíssima de ser humano que cada indivíduo apresenta. Os dois níveis de autoconhecimento são imprescindíveis para uma percepção fidedigna de eventos externos.
BTA − Incrível… É de pasmar sua profundidade. Algo mais desejam dizer aos nossos leitores?
EI − Nenhuma profundidade é útil se não for convertida em atitudes. Nossas ideias terão sido expostas ingloriamente, se os que gentilmente as lerem não se transubstanciarem ao contactá-las, aplicando-as em si mesmos e em suas existências, na forma de comportamentos diferenciados, mais satisfatórios, a caminho da realização pessoal plena. Que reflexionem mais, antes de reproduzir, automaticamente, conceitos pré-estipulados, como se fossem formas compradas no mercado de consumo, produzidas em série, pelas linhas de montagem fabril da cultura de massa. Viver não é um ato mecânico, como supõem aqueles que gravitam nos círculos estreitos da consciência humana primária. Por isso, entediam-se com a rotina. Cada dia tem suas particularidades únicas, que exigem, por conseguinte, uma visão exclusiva, um estado de espírito novo, para que não se caia na ilusão de que os acontecimentos se repetem, apenas porque os ponteiros do relógio passam pelas mesmas numerações dos dias, anteriores.
(*) Como sempre, os espíritos Incógnitos, provavelmente uma plêiade de gênios celestes dirigentes dos movimentos filosóficos do orbe, assombram com sua profundidade e, ao mesmo tempo, sua incrível clareza, abordando assuntos complexos com fabulosa didática. Fazem questão de se manter anônimos, para serem avaliados não pelos nomes que ostentem, mas pelo conteúdo e qualidade de suas ideias. Os Grandes Mestres da Humanidade voltam a falar conosco… pobres “mortais”…
(Nota do Médium)
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
em diálogo com Espíritos Incógnitos
23 de outubro de 2003