Benjamin Teixeira
pelo espírito Eugênia.

 

Eugênia, numa entrevista concedida a grande semanário brasileiro, um filósofo francês combate abertamente as grandes religiões monoteístas (cristianismo, islamismo e judaísmo) e a crença em Deus, de reboque, por supor que instilam no homem o seu pior. Sugere que a filosofia deveria substituir a religião, e que se deve pregar o ateísmo, para que o ser humano possa ser realmente livre, principalmente para uma política hedonista de existência. Poderia nos elucidar estas questões?

Qual foi mesmo a motivação religiosa ou tese divina do Füher Adolf Hitler e de todo o movimento nazi-fascista, com seu saldo de dezenas de milhões de mortes e a lista de maiores hediondezes da história humana no orbe? Por sinal, a Alemanha, há pelo menos dois séculos, é a nação de mais antiga e sólida tradição filosófica do mundo, tendo nascido e escrito por lá alguns dos maiores nomes da área, desde então. E, por lá mesmo, nação das mais cultas do mundo em todos os tempos, milhões foram hipnotizados e manietados por um conjunto bizarro e evidentemente tolo de idéias pseudo-científicas e racistas, de um modo que, até hoje, pasmam estudiosos dos processos mentais, coletivos ou individuais. E quanto a Stalin, a besta-fera russa que, para alguns historiadores, igualou-se a Hitler em selvageria genocida, gerando um verdadeiro estado de horror e castração de todas as liberdades civis, num sistema totalitário oficialmente ateu, com 20 milhões de mortes de patrícios, sob a sua conta? A violência, a bestialidade e a contradição são chagas da condição humana, no nível evolutivo em que se apresenta na Terra. Retirar a religião de seus quadros ideológicos seria equivalente a levar a humanidade ao abismo, como estes dois “pequenos” exemplos históricos bem o demonstram. A pobreza de argumentos do entrevistado é flagrante. Seguindo seu raciocínio, poderíamos então dizer que deveríamos abandonar também a Ciência, já que ela produziu a tecnologia bélico-nuclear, bem como a bélico-biológica, que ameaça a espécie humana de extinção, atualmente. E por que ninguém propõe isto? Porque se trataria de uma total falta de bom senso. E por que dizer o mesmo de Deus e da Religião?… Ah… porque a idéia de Deus incomoda… principalmente egos inflados, dispostos até mesmo a abdicar do bom senso, para se verem livres de um ser superior a quem tenham que dar contas por seus atos e suas verdadeiras motivações. É bem óbvio que a religião tem seus aspectos medonhos, mesquinhos e até genocidas, como tudo em que o instinto de poder e supremacia humanos adentra. Mas daí a deduzir-se que a religião seja um mal, há um abismo óbvio. A religião, quanto a ciência e também – como tão bem demonstrou o entrevistado – igualmente a filosofia, podem ser usadas para o mal… quanto para o bem. Deus fez o homem livre, tanto que o mundo é o que é. Mas alguns homens não gostam da idéia de não serem Deus… Portanto, o rapaz sofre de distúrbios da personalidade, megalomania, egocentrismo e egolatria, e far-lhe-ia um grande bem um longo período de terapia, com um psicoterapeuta honesto e duro, a fim de que tivesse chances de resolver a médio ou longo prazo, suas graves e viscerais problemáticas com as idéias de poder, figura paterna e sexo. Obviamente, contudo, deve, por seu quadro semi-psicótico e provavelmente psicopático, sentir-se magnificamente são, assim como Hitler, que se sentia um enviado de forças indefiníveis para salvar a humanidade…

Eugênia, n’outro momento, o filósofo usa a descoberta de contradições nas escrituras sagradas das ditas religiões, como uma prova de que a religião não faz sentido, sobretudo no que concerne a incitações à violência, presentes tanto no Torá, na Bíblia, como no Corão.

É incrível como não tenha se envergonhado de apresentar tese tão superficial, sobre questão tão complexa e profunda, como as proposições teológicas e teleológicas cifradas, ínsitas nos textos sagrados das três grandes religiões. Até uma criança em processo de alfabetização pode detectar tais aparentes contradições, mas não cria caso de consciência em relação ao assunto porque, assim como sabe que quando se diz: “vamos matar o tempo”, ninguém está falando em cometer assassínio, igualmente há metáforas em toda forma de linguagem humana, incluindo e, principalmente, a religiosa, por tratar de temas sibilinos demais para poderem ser expressos em linguagem direta e precisa. Como nosso “amigo” sofre de alguns problemas, como disse, porém, equipara-se ao quadro clínico de psicóticos, que têm, como uma de suas características fundamentais, a incapacidade de apreender metáforas. Criança ou louco? Talvez um pouco das duas coisas, com boas pitadas de más intenções dissimuladas.

Eugênia, num certo momento, que reputei insensato e delirante do autor, disse ele que as evidências de que a religiosidade do ser humano teria bases genéticas é uma “idéia ridícula”, e que toda idéia de Deus é introjetada culturalmente no ser humano.

Ele quer discutir fatos, porque não gosta de ter que se curvar ante eles, assim reputando-os de “ridículos”, quando ridícula é a atitude da criança que esperneia ante evidências, apenas por se ver contrariada em seus caprichos. Propor a falácia da teoria da “tabula rasa”, em pleno século XXI, denota, inequivocamente, a terrível limitação de conhecimento e raciocínio científico do jovem autor, que não se dá conta de que o ser humano é uma resultante complexa, que não só inclui somente os aspectos ambientais-sociológicos (a que dá uma primazia numinosa e mística… as incoerências humanas…), mas também os genéticos e espirituais (o que nós defendemos). Não só os experimentos em neurociências têm revelado áreas específicas do cérebro para tais funções religiosas, místicas, mediúnicas, espirituais (*2), como estudos vastos em antropologia e etnologia têm evidenciado, claramente, a propensão humana, em qualquer tempo e lugar, a demonstrar vocação religiosa. O entrevistado demonstra ser ou totalmente desinformado, ou leviano com relação a campos sérios e científicos de conhecimento, ou, principalmente, surtado em sua fantasia de poder absoluto. Padecendo do tal distúrbio (vê-lo como doente mental é a melhor hipótese de leitura de seu caso, já que seríamos forçados a atacar-lhe o caráter, d’outro modo) a que me referi, colocou o ego e a razão no seu centro neurofisiológico do divino, e, esquecendo-se do bom senso, nivela-se, em escala medíocre, aos tiranos que citei acima (Hitler e Stalin). Superficial na análise e sofrível em conclusões anacrônicas e simplistas, desconhece, provavelmente, que, no campo de estudos da inteligência, o raciocínio lógico-analítico (sobre que ele pretende se respaldar, mas contra que faz atentados crassos, ao ignorar campos inteiros do saber, como disse acima) é apenas um aspecto do pensar completo, multidimensional, que inclui a intuição e meios não-sensoriais e não-lógicos ou não-racionais de inferência e perscrutação de significados, assim como o fizeram todos os grandes gênios do passado, quebrando paradigmas de interpretação da realidade e engendrando esquemas novos de conceitos. Ele, porém, repete baboseiras obsoletas (uma cultura pseudo-científica-atéia-materialista, comum no século XIX) aplicando a régua da razão para medir o gás das abstrações profundas do espírito. Um papagaio desmiolado, com penas de pavão. Um discurso com muito ego e nenhuma coerência. Tolice pueril.

O tal filósofo, como já li d’outros autores, acusa Paulo de Tarso, o Apóstolo dos Gentios, de doente mental, por apresentar alguns sinais da sintomatologia psicopatológica, em sua conversão às portas de Damasco.

Oh, mas o que vemos, então? Ele não havia abandonado as pesquisas e estudos em neurociências? Parece que o seu interesse por este ou aquele dado científico surge ou desaparece, conforme a conveniência em confirmar ou denegar sua tese, exatamente o que ele acusa nas pregações de alguns religiosos (*3). A isto, em psicologia, chamamos de “projeção psicológica”. As intenções do dito filósofo (não sei se merece esta alcunha), como fica bem claro com isto, são dúbias, esquivas, inconfessáveis… Não sabe ele (talvez saiba) que, no campo de pesquisa dos estados alterados de consciência, descobriu-se que a sintomatologia do patológico e os indícios do transcendente assemelham-se profundamente nos aspectos superficiais, distando verdadeiros abismos, nas conseqüências psicológicas e morais, na vida de quem lhes padece as experiências, tanto quanto um psicótico preso na cela d’um manicômio diferencia-se de um gênio e herói como Paulo de Tarso, que não só arrostou poderes ingentes constituídos de seu tempo, como deixou um código de idéias que sobreviveu a dois milênios de transformações históricas e que é aplicado, por centenas de milhões de criaturas, até hoje, sendo considerado, por muitos historiadores, um dos homens mais influentes da humanidade, como co-autor do cristianismo ao lado de seu fundador.

Eugênia, você me parece tão dura hoje! Acho que poderá chocar também alguns de nossos leitores!

Não se pode ser suave com quem comete um verdadeiro atentado aos patrimônios mais sagrados da civilização, perturbando os corações de milhares de almas incautas, que lhes podem cair no canto da sereia da falácia ideológica, pretensamente filosófica. Caberia melhor o jovem tolo ser honesto e manifestar suas reais intenções, em vez de se apresentar em nome de uma filosofia que desconhece e desmerece, com uma retórica vazia, aparentemente lógica: tão-somente rebelde-adolescente. Os tiranos tentam sempre encontrar uma forma de se fazerem prevalecer sobre os outros, ainda que fraudando, engabelando mentes frágeis ou assacando contra instituições dignas e importantes realizações da humanidade.

Mais algo a dizer sobre o assunto?

Que cada um faça uso de seu bom senso e que se informe, por outro lado, e estará protegido contra os vírus da revolta e do desespero de quem sabe que não pode submeter os outros ao talante de sua vontade e de seus caprichos vergonhosos.

(Diálogo travado em 24 de maio de 2005.)

(*1) “Páginas amarelas” de Veja, edição 1906, datada de 25 de maio de 2005.

(*2) Lóbulo temporal direito, ou, mais precisamente, a região orbi-frontal direita do cérebro, o “The God’s Module”, conforme autores norte-americanos.

(*3) Eugênia alude a outro trecho da entrevista, a que não me referi na pergunta.

(Notas do Médium)