A memória relativamente boa que porto concede-me alguns favores especiais, ao traçar alguns dados historiográficos de minha existência. No dia primeiro de outubro de 1984 − há exatos 19 anos, portanto − vivenciei uma experiência que considero, já há alguns anos, seminal. Estava para completar 14 anos de idade, em 25 dias, e minha professora de Português à época, a querida “Lilibete”, com quem me encontro, ainda hoje, volta-e-meia, em restaurantes da cidade, acompanhada de seu elegante esposo, meu “xará”, passou-nos uma redação com tema incomum: “Eu”.
O pessoal “chiou”. Como assim “eu”? O que se poderia falar de si? Lembro-me de que quase ninguém conseguiu escrever. Umas duas meninas da sala grafaram, muito a contragosto e com esforço, um ou dois parágrafos, estacando, porém, sem conseguir ir além disso. Como não era exercício que valesse nota e não fosse obrigatório, a reclamação geral rapidamente se converteu em completo ócio, durante aqueles cinquenta minutos de aula, sob protestos ininterruptos da querida Lilibete, que tentava, sem perder o fôlego, mas ingloriamente, que todos escrevessem alguma coisa. Enquanto isso, entrei num transe frenético de inspiração. Uma verve “literária” espocou-me, prolífera, e escrevi, copiosamente, sem que o braço pudesse acompanhar a velocidade do pensamento. Tivemos outras aulas de Português nos dias subsequentes, mas somente no dia 10 de outubro foi-me concedida oportunidade de ler, diante da turma, o que escrevera (fizera alguns retoques e complementações no texto, naquele dia).
Quando tomei a palavra, Lilibete ficou estarrecida: eu enfileirava, sem qualquer pudor, todos os defeitos que julgava trazer em mim; todos que pudessem existir na espécie humana, já que ainda aqueles que não propriamente portava, trazia-os metaforicamente vivos n’alma, como o fato de “matar” alguém de tristeza ou “roubar” a paciência alheia e outros que não se houveram manifestado por falta de oportunidade. Lembro-me de Lilibete, muito gentil e doce, por diversas vezes me interromper:
– Não acredito que você tenha todos esses defeitos – disse a certa altura.
– Não, claro que você não tem essa falha! – disse em outro.
Sentia um estranho prazer catártico em me desnudar daquela forma ante os colegas de infância, vários com os olhos esbugalhados. Recordando-me daquele episódio, fico feliz de ter encontrado tal aptidão psicológica e moral naquele adolescente desinformado que fui, porque, como disse o Apóstolo Pedro: “Não há pecado que um irmão meu cometa que eu não possa cometer”. E, por outro lado, muito ainda me surpreende como a maioria esmagadora das pessoas se julga muito boa e decente para se sentir à parte da “escória da humanidade” − não é à toda que existe tanta dificuldade na prática do perdão.
Depois daquele dia-marco, algo aconteceu comigo… Minha mente ativou-se para a compreensão profunda de mim próprio. Desenvolvi um outro nível de consciência. E, de fato, apenas três meses depois, às 21:25 h do dia 11 de janeiro de 1985 (a precisão é maior porque tenho o registro por escrito), tive a mais importante e marcante experiência mística de minha vida atual, até hoje. Fiz um transe espetacular, em Recife, na casa da mesma tia-avó onde teria outra forte experiência psíquica dois anos mais tarde. Desta dita experiência de 85, em que me foi descortinado um panorama do futuro longínquo − algo em torno de 200 anos à frente − voltei com a consciência, ainda vaga porém (só ficaria clara na outra experiência de 1987), do que deveria fazer na minha atual existência física. Há duas particularidades curiosas que gostaria de ressaltar, ante o prezado leitor:
1. Quanto a ter tantos defeitos, estava errado apenas em um pormenor: também possuo qualidades, embora muito poucas.
2. Quanto à vivência mística luminosa de 1985, que se seguiu a esta vivência ab-reativa, só me foi dado vivenciá-la porque, sem acanhamentos, permiti-me não só me ver, como me expor como um ser cheio de treva. Como sempre, subsiste, tal como propôs Jung, o princípio de que, primeiramente, precisamos nos conscientizar de nossas trevas interiores, para que vislumbremos a Luz…
19 anos se passaram. Hoje, acho-me muito melhor ser humano do que era, por aqueles dias: um tolo céptico que supunha que religião era assunto para gente destituída de inteligência e que não conseguia se sensibilizar, senão pela morte do coelhinho de estimação, “Floca”, que desencarnou por atropelamento, às 7:25 h de 29 de outubro… daquele mesmo ano, após instantes de terrível agonia, finda a qual me trancafiei em meu quarto para chorar terríveis quinze minutos consecutivos − fiquei surpreso por me ver chorar “tanto” e marquei o tempo, no relógio de pulso que atrasava 1 segundo a cada duas semanas, e do qual corrigia o atraso, quinzenalmente (Será que era neurótico pelo controle racional de tudo?)
Julgava-me muito inteligente por aqueles dias. O intelecto era tudo (é claro!: o que mais poderia haver além dele?). Foram enormes a perplexidade e a confusão que se esbateram sobre mim, quando tive que concordar, com os grandes filósofos do Oriente Antigo, ao travar, dois anos depois, meu primeiro contato com eles, de que a mente, muitas vezes, mais atrapalha que facilita o processo de percepção lúcida das coisas. Hoje, apraz-me passar por bobo, esquivando-me de falar e explicar-me o que não vale a pena. Assim, rio e faço outros rirem comigo. A vida é muito melhor assim. O garoto sisudo que fui há duas décadas atrás, um desajeitado homem maduro em corpo de criança, com ares de superioridade e de desdém para com os adultos “apalermados” que conseguiam acreditar que o “holocausto nuclear” não aconteceria (uma guerra nuclear de grandes proporções, que se temia acontecesse durante o período da “Guerra Fria”). “Os mesmos estúpidos otimistas de sempre” − pensava comigo − “O mesmo pensamento idiota que campeava o mundo antes das I e II Guerras Mundiais: e elas aconteceram mesmo assim”. E eis que não só a Guerra Fria findou-se, como esbarrondaram, fragorosamente, num espaço de pouco mais de cinco anos, o “Muro de Berlim” e a antiga e aparentemente inexpugnável “União Soviética”.
Hoje sou um otimista completamente convicto de que o pessimismo é signo de pouca profundidade na percepção e na avaliação de acontecimentos e tendências, bem como de miopia histórica e pobreza intuitiva.
Hoje sou um homem de quase 33 anos (completo-os ao final deste mês), e divirto-me tanto com o meu e o lado infantil das pessoas, que, para muita gente, observando-me em certas circunstâncias, custa a crer que me dedique à tarefa que realizo.
Bem… estou aqui. Hoje sorrio complacente, quando me lembro daquele menino cheio de empáfia da década de 80 do século passado; e me delicio com o homem maduro que estou me tornando, cada vez mais feliz e despretensioso. Sentia que era meu dever gritar para o mundo que não podíamos nos destruir com uma hecatombe nuclear, apesar de estar sem recursos para tanto, na condição de um adolescente recém-saído da infância, e quase enlouqueci com essa limitação, em considerando, cheio de amargura e angústia, a gravidade da crise histórica que atravessávamos à época. Hoje, estou, graças a Deus, mais preocupado em me salvar para um nível melhor de consciência, e, com isso, arrastar outros comigo, para um universo mental mais feliz. Somente nos salvando de nossas próprias loucuras, idiossincrasias e idiotices, neuroses, estupidez, ignorância e limitação, mesquinhez, maldade e egoísmo, é que, a pouco e pouco, poderemos, juntos, salvar o mundo…
Trouxe, mais uma vez, algo de minha biografia, aos prezados internautas, para lhes propiciar a colheita de um pouco de experiência de meus numerosos erros, e, com isso, possam evitá-los, dentro do possível. Nada como não ter expectativas altas em torno de si e dos outros, para ser feliz… Nada como, simplesmente, ser, em vez de tanto pretender se tornar. Devemos estar bem conscientes de nossas limitações e respeitá-las cuidadosa e continuamente, inobstante abertos e motivados à ousadia e ao crescimento igualmente constantes.
O que deve ser é, ao tempo certo. E, embora a parcela de esforço individual seja imprescindível, ninguém se tornará o que não pode ser e que já não seja em certa medida, nem muito menos precipitará o que deve ocorrer em tempo adequado.
Benjamin Teixeira de Aguiar
1º de outubro de 2003 (redação concluída às 3:29 h da madrugada)