Benjamin Teixeira
pelo espírito
Temístocles.

No campo do estudo da afetividade humana, importa considerarmos as várias tipificações emocionais, psicológicas e morais, que concernem a necessidades e níveis específicos de vinculação pelo sentimento. E, assim, em vista de favorecer uma completude maior de mapeamento, no âmbito do amor, estamos aqui subdividindo-lhe as categorias, indo um pouco além das clássicas storgè, philía, agápe e éros da Grécia Antiga, para adentrarmos uma perspectiva mais moderna e consentânea com as complexidades da vida social na organização e civilização pós-industriais.

Não temos, com isto, a pretensão de estabelecer uma taxionomia definitiva, nem mesmo completa, do intrincado universo emocional e afetivo humano. Mas pretendemos delinear algumas balizas mestras de classificação, a fim de que, distribuído o campo do sentimento e das relações interpessoais humanos em categorias distintas, possa-se aprofundá-los em toda sua polifacética manifestação.

O amor, de fato, constitui uma espécie de continuum, mas o dividi-lo em camadas, para estudá-lo a fundo, permite uma compreensão mais próxima de suas expressões.

1. Amor filial.

“Amar o próximo como a si mesmo”, asseverou-nos o Mestre Jesus, parafraseando e consolidando a assertiva de inúmeros sábios e luminares que O antecederam. Curioso notar a pré-condição precípua que subjaz nesta máxima suprema do Cristo: não pode haver amor verdadeiro ao próximo, sem um auto-amor de qualidade. Em outras palavras, a afetividade, por fazer parte da natureza humana, sempre haverá, mas terá desdobramentos doentios, se não se desenvolver a partir de uma muito bem lapidada auto-estima. A primeira experiência do ser humano é o ser amado, o receber afeto de seus pais, em oceanos de preocupação e benefícios que são ou pelo menos deveriam ser incondicionais. Quem não recebe amor, de modo irrestrito e largo, ou não o recebeu em algum momento de sua existência, quedar-se-á problemático psicologicamente, refletindo seu padrão neurótico em todos os relacionamentos em que se venha a envolver. Eis por que a psicologia contemporânea associa a etiologia da sociopatia à ausência do entretecimento de elos afetivos entre a criança e alguma criatura humana, nos primeiros momentos da infância. Embora alguém não se torne psicopata por traumas ou ausência de afetos de uma só existência (porque os que têm potencial ao amor amadurecido criam conexões afetivas até com gente problemática e em meio a circunstâncias mórbidas, como a dos maus-tratos sofridos em tenra idade, por exemplo), indubitavelmente, o ser amado nos primeiros anos de vida no domínio físico de existência é de axial relevância para o próprio equilíbrio e saúde emocional, quanto moral.

2. Amor fraternal.

O segundo grande e essencial tipo de amor a se experimentar é o fraternal, base do que poderíamos apresentar como o modelo ideal do amor em suas expressões mais puras e elevadas. Embora o afeto parental possa chegar às raias da angelitude, e o erótico contenha potenciais para desdobrar forças pujantes e abrasadoras do espírito, fomentando criatividade e trabalhos prolíferos no bem, o amor fraterno, em suas manifestações sagradas de incondicionalidade, como mais claro ficará, quando estudarmos sua feição universal (que julgamos de bom alvitre abordar à parte), é o padrão mais lídimo e nobre do amor entre as criaturas, na consciência plena de sua igualdade fundamental, enquanto seres em processo de evolução e/ou de sujeição perante o Criador (*1). Só Ele-Ela está em condições de velar com o mesmo espírito de superioridade dadivosa e protetora com que pais e mães, quanto guias espirituais e condutores de multidões, se colocam diante de seus irmãos em humanidade; somente Deus é Pai-Mãe plenamente, portanto. Por outro lado, apenas o amor fraternal gera energia contínua para o entretecimento dos fios de afetividade duradoura, o que de modo algum é possível sob o império absoluto de eros, vulcânico, mas basicamente provisório.

O arquétipo do fraterno, entretanto, tem sua face sombria (*2), e eis por que, amiúde, dá espaço a rivalidades dantescas e ódios seculares, que varam milênios, em busca do que não sabe exatamente, mas que é a transcendência de sua sanha primitiva para a excelsitude e sublimação do amor altruístico.

3. Amor amical.

É semelhante ao afeto fraternal, mas distingue-se dele substancialmente, não tanto pela natureza, mas pelo grau, sendo, assim, um afeto menos profundo, que se tem por companheiros de mesma faixa de idade, sem que se esteja no mesmo nível de entendimento e de sentimento, como ocorre entre irmãos do espírito. Há amigos que têm amor fraternal, e irmãos que mal conseguem vivenciar o amical um pelo outro, sentindo-se estranhos, alheios reciprocamente (*3). Logo, o amor fraternal, mais do que uma teia automática de vinculação afetiva entre irmãos biológicos, representa a força viva da afinidade operante e harmônica, que tece fios de integração e de realização entre aqueles que se consorciam num mesmo diapasão psíquico. Já o afeto amical pode, entre companheiros de mesma classe, ambiente de trabalho ou religioso, esboçar as balizas da sociabilidade indispensável ao bom convívio entre as criaturas, sem os arroubos, a profundidade, nem mesmo a durabilidade que somente o amor fraterno pode conferir a uma relação entre iguais. É o amical que favorece namoricos, além das paixões dos instintos; é o fraterno que cria as cadeias santas do matrimônio. É o amical que forma conhecidos, que mal se compreendem no elementar; é o fraterno que conjuga os irmãos em ideal, sempre empáticos um com o outro, até nas sutilezas mais fundas da própria alma.

4. Amor espelho.

No final da década passada, descobriu-se, em neurociências, o denominado “neurônio-espelho”, que possibilita os fenômenos de empatia e mesmo de aprendizado no domínio humano de existência. Graças a esta matriz neurológica, executa-se, então, o processo da repetição que viabiliza a cognição, constituindo o primeiro estágio nos níveis da aprendizagem.

O amor espelho está presente nos amores platônicos da adolescência, mas também na idealização de amigos, tanto quanto na visão quase idolátrica com que se estabelecem laços de veneração com figuras de mentores ou ídolos distantes, reais ou imaginários.

O fenômeno da projeção psicológica é sobejamente estudado no território da psicologia analítica, criada por Carl Gustav Jung, de modo que toda relação social e mesmo todo nível de percepção envolve, necessariamente, nos padrões mais elementares de sua própria funcionalidade, o impulso de ver algo de si mesmo no outro, sejam estratos obscuros ou camadas luminosas de si, sejam elementos prevalentes ou faixas de si que constituem percentuais diminutos na própria totalidade psíquica. Assim, somente se vê e, principalmente, só se compreende aquilo que exista de algum modo dentro de si.

5. Amor erótico.

O amor erótico é muito mais do que parece. Galvanizador da produtividade, fonte de inspiração e catalisador de processos evolutivos, é a força da “libido”, como denominou Sigmund Freud, em sua acepção mais ampla; ou de eros, como classicamente se costumou chamar esta potência do espírito, o grande motor de realizações prodigiosas e de feitos íntimos inacreditáveis. Assim, o amor criativo (digamos assim) não se circunscreve ao círculo estreito da afetividade romântico-sexual, nem tampouco precisa nela desembocar, para atingir as culminâncias de suas funções. A energia de elã psíquico pode aparecer em várias circunstâncias da existência, mesmo muito longe daquelas em que as pessoas possam se aperceber de estarem movimentando seus potenciais. Eis, então, que surgem cambiantes complexas de heteroerotismo e homoerotismo, sem quaisquer laivos de manifestações não só de contato sexual entre os envolvidos, mas mesmo de desejos ou fantasias eróticos (pelo menos, não no plano consciente da personalidade). Uma potência de coesão e fermentação entre indivíduos e coletividades, que faz com que pessoas e grupos humanos se enamorem de causas e se tornem afinados e unidos num mesmo grande impulso-motor de reflexão, transformação e realização.

6. Amor parental.

O amor parental se divide em seus dois pólos: o paternal e o maternal, e representa o sentimento de total transbordamento que se tem por filhos, levando o indivíduo que o vivencia a se dispor a sacrifícios e lhe conferindo o poder de renúncia a si mesmo, sendo ainda a matriz do anjo a se desenvolver celeremente, na câmara secreta do espírito, viajor do longo trajeto evolucional.

Sem o sentimento de amor incondicional, favorecido, inclusive, pelos instintos de defesa da espécie, jamais se terá como transcender o nível humano de consciência e galgar o seguinte: a angelitude. Com isto, se pode criar a metáfora de que, um dia, ter-se-á o amor que se dedica aos filhos, por toda a humanidade. O anjo vê todas as criaturas como filhos, e as ama não apenas estremecidamente como as mães, mas com a distância-liberdade que os pais maduros impingem ao seu relacionamento com os rebentos d’alma.

7. Amor espiritual.

É aquele que se tem por Deus e Seus representantes, responsável pelo sentimento de veneração e adoração, indispensável para o progresso íntimo, para a plenitude da alma, para a ação prolífera e alinhada com a própria consciência e as próprias intuições.

Algumas regiões da nossa neurofisiologia cerebral foram inclusive detectadas e têm sido estudadas como sendo as responsáveis pelas experiências do numinoso e espiritual, entre elas o lobo parietal esquerdo, que nos dá o sentimento (ou complexo) de identidade (tanto quanto a transcendência dele mesmo), e, outra, a área orbifrontal direita, que nos permite vivenciar os contatos paranormais com dimensões variadas da realidade (tanto no domínio físico de vida, como nas suas várias camadas do plano extrafísico de existência), ainda nos propiciando o trâmite dos mecanismos da intuição.

Sem a consciência de alteridade bem desenvolvida, e de uma Alteridade Superior, a idéia de um Algo Maior a que se dedicar e servir, é impossível ser humano plenamente. A realização completa de nossa condição humana vem do atendimento ao ideal, aos reclamos da própria consciência, ao seguimento da vocação e de um Desígnio Superior, todos eles intrinsecamente relacionados com a mística experiência de amar o Sublime.


8. Amor universal.

Raro de se conseguir em plena manifestação, quando no nível humano de consciência, existe, porém, nos rasgos (normalmente apenas traços) de piedade que toda pessoa sente, embora variem o objeto de sua solicitude e o próprio volume de afeto. Um amor que, em se prestando atenção, é isento de interesses embutidos de retribuição. Quem se compadece de quem quer que seja só desejaria que o objeto de sua compaixão não estivesse na situação de penúria ou miserabilidade (material ou moral) que lhe provoca os “apertos no peito”, ainda que este sentimento (ou mesmo apenas prurido de sentimento) seja tão frágil, embrionário ou bruxuleante, que não leve o indivíduo a mobilizar-se em função de socorrer a criatura que lhe toca a alma por dentro.

Na vaidosa cultura de nossos dias, é comum se deplorar esta que é a suma essência da espiritualidade humana, o gérmen de anjo que habita a intimidade de cada cidadão comum. Porque, se há, no amor parental, o elemento instintivo e até mesmo o vínculo da posse, quando não um inconsciente (ou nem tão inconsciente assim) desejo de recompensa futura; no amor-piedade, normalmente comparece o espírito em sua pura forma de afeto transbordante e incondicional, sem qualquer outra motivação, que não o amor em si mesmo.

Como acima falamos, antes de dar início a este esboço de classificação, o amor é um fenômeno único e monolítico, que tem um dégradé de expressões que nos permite chamá-lo de grande onda afetiva, um campo quântico de possibilidades infinitas, um continuum probabilístico, criativo, místico, que se manifesta mais do que imaginamos, em todos os aspectos da humana existência.

Somente pela plenipotência de sua vivência, lograr-se-á atingir a realização completa da própria alma. Diante desta sua importância capital, e, destarte, para favorecer o estudo, a compreensão e a expansão deste sublime recurso do espírito, é que procedemos a uma conceituação analítica, como esta, de um evento íntimo e inteiramente subjetivo que só pode ser corretamente compreendido por uma abordagem sintética e intuitiva. Mas, como falamos para uma sociedade tomada de mentes submetidas ao império da razão, isto é necessário, e, assim, damos cabo destas divisões de “tipos” de amor, como se isto fora possível, como “hipótese de trabalho”, inconcebível nos níveis mais altos de consciência. De futuro, quando houver domínio desta matéria, será possível dispensar tais expedientes propedêuticos, para que se vivam, integralmente, as maravilhas e o poder espetacular do amor, irrestrita, incondicional, impessoalmente.

(Texto recebido psicograficamente, pelo médium Benjamin Teixeira, na reunião mediúnica fechada do Salto Quântico, realizada no dia 30 de janeiro de 2007. Revisão de Delano Mothé.)

(*1) O autor espiritual usou a expressão “e/ou” em vez da conjunção “e”, porque todos os seres do universo estão sujeitos a Deus, mas nem todos estão em evolução, já que, conforme a hierarquia evolutiva espírita, existem espíritos que atingiram o ápice da escalada do desenvolvimento, que qualificamos como “relativamente perfeitos” (porque só Deus o é absolutamente) – estágio máximo de “iluminação” que, em outras correntes espiritualistas, recebe nomes diferentes, como no cristianismo clássico, em que é chamado de plano crístico, ou no budismo, em que é denominado de nível búdico de consciência.

(Nota do Médium)

(*2) Todos os demais igualmente têm, mas, neste, a malevolência é mais comum, por isso a referência destacada.

(*3) Porque quando há aversão intensa demais ou mesmo ódio, dá-se a presença, como há pouco dissemos, do amor fraterno, que é profundo, só que em sua polaridade invertida, negativa, destrutiva.

(Notas do Autor Espiritual)