Benjamin Teixeira de Aguiar – Deus pode permitir que uma Sua criatura prossiga nos próprios erros e mesmo os intensifique, com o fito de que ela mesma se emende ulteriormente?

Espírito Eugênia-Aspásia – Sim, e isso acontece frequentemente. Não se percebe isso nos criminosos de toda natureza? Assim, por meio de extensa permissão ao uso inadequado do livre-arbítrio, a Divina Providência intensifica o efeito negativo dos erros, a fim de que a própria criatura, por meio de sua consciência, mude de foco, e se decida por acertar.

BTA – Isso tem um limite? Porque existem criaturas que não se sensibilizam muito com as consequências de seus atos, ainda que danosas a si.

EEA – Sim, há um limite, e é por isso que existem as cassações de oportunidade, e vêm, então, as provações amargas, libertadoras de todo vício, inclusive os morais. O Criador, assim, concede liberdade até uma certa medida, e, depois de a criatura haver gozado de tempo suficiente para compreender o seu erro e corrigir-se, não o tendo feito, o ensejo de liberdade é suspenso, e ela passa a ser uma carcerária do destino, presa a certas contingências acerbas, como limitações físicas, emocionais ou mentais severas.

BTA – Algumas pessoas diriam que essa limitação está demorando muito para alguns criminosos conhecidos.

EEA – Estão tomando uma perspectiva temporal humana. Deus pode oferecer toda uma existência para um indivíduo emendar-se. Não o fazendo, a cobrança acontecerá numa próxima existência. A cobrança, porém, deixada para outra reencarnação, que parece uma concessão favorável, da ótica humana, é, em verdade, extremamente desvantajosa para o espírito, já que ele se terá onerado mais intensa e extensivamente, ante as Leis da Vida, e sofrerá bem mais na corrigenda. Sofrer as consequências, de pronto, dos próprios atos, é sempre uma bênção, oferecida sobremaneira àqueles que buscam mais a espiritualidade e a Deus. Eis por que, para quem está na linha do bem, denodando-se por acertar e ser útil, os efeitos de um desvio de rota, por mínimo que seja, são sentidos com grande força e de imediato.

BTA – Que dizer do fato de que grandes tiranos convertem-se, amiúde, em grandes missionários do bem, em vidas posteriores?

EEA – Que Deus é justo e bom e que propicia, a quem incorre em grandes equívocos, o ensejo de se ressarcir por seus deslizes, fazendo o bem. Por outro lado, certo tipo de personalidade age tão apaixonada e intensamente no mal, como faz da mesma maneira, ao se converter às hostes do bem. É um traço de personalidade ou mesmo de caráter que muito agrada a Deus. Não por acaso, Jesus disse a seus discípulos que muitos dos que eles condenavam como sendo de “má vida” entrariam “no Reino dos Céus” antes deles. “Sede quentes ou frios”, continuou, através de João Evangelista, no Apocalipse, concluindo: “Eu vomito os mornos.” Por fim, existe uma força centrípeta consciencial (digamos assim) gerada pela excessiva externalização do indivíduo, por um certo período de tempo, em preocupações imoderadas com o material, o físico e o social, como se fora a corda de um elástico que se esticasse até o limite e depois tensionasse as extremidades a se aproximarem, com muita violência. Assim, quem passa muito tempo voltado para interesses externos, fúteis e superficiais, passa a sentir, após determinado tempo, uma fome de coisas substanciais e profundas, de valores interiores e morais, como nunca alguém que não houvesse sido tão voltado para o exterior sentiria. Eis porque um teólogo cristão do passado chegou a asseverar, ousadamente: “o ‘pecado’ aproxima o homem de Deus”(*).

BTA – Como encontrar o ponto de equilíbrio entre o prazer e a dor, entre o excesso e a contenção?

EEA – A Divina Providência concedeu aos seres humanos um guardião fundamental para isso: a razão. Por meio dela, o bom senso se estabelece, e o indivíduo pondera, decide e persiste nos melhores caminhos de paz e de felicidade.

BTA – Algo a acrescentar sobre esse tema importantíssimo?

EEA – Que cada um procure focar a mente no sentimento de paz e felicidade, como acabei de falar. Se a pessoa não sentir uma sensação profunda de dever cumprido e satisfação íntima, provavelmente está fazendo algo errado, ou deixando de fazer algo certo em sua vida. Portanto, que cada um aprenda a se auscultar com critério e profundidade, para que possa usar a bússola interior de destino: o sentimento de dever retamente cumprido, que confere à criatura uma alegria de viver que nenhuma outra experiência pode ofertar.

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
em diálogo com Eugênia-Aspásia (Espírito)
2 de setembro de 2003

(*) Santo Agostinho.

(Nota do Médium)