21 de outubro de 1990. A queda do Muro de Berlim ainda não havia completado um ano de ocorrida. A antiga União Soviética, por outro lado, não havia esbarrondado – o que aconteceria um ano mais tarde. Aracaju era uma capital acanhada, com 400.000 habitantes incompletos, longe da metrópole com quase l milhão de habitantes de hoje. O Projeto Salto Quântico – sem este nome – resumia-se a algumas modestas incursões na imprensa escrita, que havia feito, desde o início daquele ano. E eu estava para completar, em cinco dias, 20 anos de idade.
Houvera visitado Chico Xavier, em fevereiro, e o anjo encarnado me dissera, pessoalmente, sobre o projeto de divulgação do espiritismo, em massa, que eu estaria destinado a realizar, que “O Dr. Bezerra prometeu ajudar”, aludindo ao famoso médico desencarnado Adolfo Bezerra de Menezes, um dos grandes luminares espirituais do país e diretamente responsável pela supervisão de todas as iniciativas de divulgação da “Doutrina” dos Espíritos no Brasil.
Mas me julgava profundamente inapto, muito humano para uma atividade sobre-humana. Foi quando, então, na noite anterior, houvera pedido uma “prova dramática” da existência deles (os bons mentores que me reclamavam tal trabalho) e da necessidade de desdobrar tal programática de atividades.
Era por volta de nove horas da manhã ou pouco mais, quando atravessava, dirigindo uma “Caravan”, com duas irmãs “a bordo”, […], o platô que separava em duas partes a propriedade rural que minha família possuía por aqueles dias, em São Cristóvão, Município hoje parcialmente absorvido pela região metropolitana da Grande Aracaju, relatando para elas a experiência de famosa médium psicopictógrafa da época, que fora, em experiência de quase-morte, conduzida à presença dos seus guias espirituais, que lhe deram a oportunidade de escolher entre ficar do Outro Lado da Vida, ou voltar ao plano físico, para trabalhar na causa de divulgação da imortalidade da alma. E, então, concluí a narração dizendo-lhes como invejava a tal médium e como gostaria de ser conduzido à beira da morte e ser trazido de volta, com a certeza de que deveria realmente me dedicar à causa de divulgação do Espiritismo. Foi o momento exato em que pus o pé no freio… A ladeira íngreme que fazia uma curva extremamente fechada, que ao todo perfazia uns 270 graus, estava começando, para uma descida, em estrada de piçarra, da -relativamente portentosa elevação do relevo em que estávamos. Bem… o fato é que o veículo estava sem freios, e, para não alongar a história, paramos à beira de um despenhadeiro com a altura de um edifício de apartamentos de talvez uns 10 a 12 andares, com o carro baloiçando na ponta, à semelhança das mais espetaculares cenas hollywoodianas de suspense/ação, por um pedrouço de poucos centímetros que enganchou-se na “saia” do carro, impedindo-nos uma queda livre no precipício, de que não poderíamos contar com nenhuma chance de sobrevivência (os amigos que visitaram o local em que ocorreu o episódio pasmaram-se ao verem a altura d’onde teríamos caído).
Com o corpo todo trêmulo, desci a pé o morro, até a sede da fazendola, com o pedido da véspera flamejando na mente, reuni as duas irmãs e ainda mais […] (a terceira, que não estava conosco) e minha mãe, que esperavam por nossa chegada, para abrir, ao acaso, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”— sabia que os nossos mentores espirituais, em momento tão crítico de nossas existências, estariam conosco, inspirando-nos. Surgiu, então, aos nossos olhos, o trecho:
“Mas quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode Ele conduzir um homem até a beira da sepultura, para em seguida retirá-lo, com o fim de fazê-lo examinar-se e modificar-lhe os pensamentos?” (*)
13 anos se passaram. E a impressão que tenho, da perspectiva de hoje, é que tudo aconteceu tão rápido e inesperadamente, como o quase-acidente-fatal de 1990. O devotamento à divulgação do Espiristimo de fato aconteceu e, atualmente, tenho quase duas dezenas de livros publicados e um programa transmitido para todo o país, em rede nacional de televisão. O Projeto Salto Quântico, de módicas participações na imprensa escrita converteu-se em sólido empreendimento, que estende braços para o exterior do Brasil, fincando bases de felicidade e paz para milhares de criaturas.
De fato… nunca podemos prejulgar os desígnios de Deus. Sou criatura extremamente humana e limitada, e acanho-me enormemente de não ser a pessoa especial e santa que acredito deveria ocupar a função de esclarecedor e libertador de consciências que executo. Todavia… se a Divina Providência prefere, para a atual quadra histórica da civilização terrena, seres humanos limitados a santos em atividades que tais… que posso eu fazer senão suportar o carma de levar luzes à multidão, enquanto eu próprio careço de luz espiritual? De qualquer forma, pelo esforço de conviver com os bons espíritos e me melhorar, para lhes estar à altura, sou hoje pessoa infinitamente melhor, mais equilibrada e centrada do que fui há treze anos, e espero em Deus possa me tornar gradativamente melhor, bem como conto com as preces dos gentis amigos de ideal que navegam no site do Salto Quântico, a caridade de suas preces, a fim de que eu acerte cada vez mais e erre cada vez menos, nesse empreendimento ciciópico, em que, em tese, não poderiam ser cometidos erros.
Renasci há 13 anos. Estou, finalmente, ficando “rapazinho” em assuntos espirituais, graças a Deus!
Benjamin Teixeira de Aguiar
21 de outubro de 2003
(*) Item 28, capítulo V, de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.
(Nota do Autor)