
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
em diálogo com Eugênia-Aspásia (Espírito)
(BTA) – Eugênia, há, no estudo do pensamento de Jung, um tema controverso e profundo, dos mais importantes e complexos, no meu entender, para debelarmos a presença do mal, dentro e fora de nós mesmos — o do “desejo perverso”.
Permito-me a liberdade de já acrescentar que me chamou muito a atenção, a respeito da temática, o alerta enfático e impressionante que Jung deu a seu amigo, o erudito sinólogo Richard Wilhelm, quando este adoeceu, severamente: de que ele precisava vivenciar um tal “desejo perverso”, já que o virtuoso Wilhelm estaria adoecido de morte por, digamos, um “excesso” de retidão. Pouco depois desse aviso, o tradutor para o alemão (favorecendo traduções posteriores a todos os idiomas europeus) do I Ching veio a falecer.
Entendo que o interlocutor do extraordinariamente vanguardista Jung não conseguiu lhe atender a solicitação ou sequer a compreendeu, para que pudesse tentar cumprir a recomendação “médica”, como ouso interpretar tenha sido.
Apesar de saber que essa talvez seja das temáticas que não podem ser ventiladas pública e abertamente por vocês, Tutores da humanidade, ao menos nas minúcias que gostaríamos, você poderia nos falar algo sobre esse assunto tão delicado?
(EEA) – Sim. O “desejo perverso” de Jung constitui uma ferramenta avançada e, ao mesmo tempo, prática de o indivíduo fazer a denominada “integração psicológica”, por meio da absorção sistemática de conteúdos atinentes à “sombra psicológica”, aqui na acepção mais estrita dos aspectos menos desejáveis da psique de uma pessoa, conhecidos por ela ou não, que de fato sejam negativos, viciosos ou mesmo malevolentes.
A sombra, no conceito de Jung, também abarca os vetores positivos e nobres da alma que não são reconhecidos pela personalidade consciente. Sobre isso, prefiro fazer um adendo didático e apontar como sumamente relevante o que vou denominar de “trabalho com o Self” ou com o Eu Sagrado do indivíduo, que deve acontecer antes ou, pelo menos, concomitantemente ao “trabalho com a sombra”. Nesse sentido, a vivência do “desejo perverso” seria uma maneira dramática, intensa e mais efetiva de se fazer o tal “trabalho com a sombra” proposto por Jung, mas somente com o escudo do “trabalho com o Sagrado” que aqui enfatizamos ser devido.
E como se trabalharia o Eu Superior em si? O discípulo do bem e da verdade deve, “primeiramente, buscar o Reino de Deus e Sua Justiça”, nos dizeres de Nosso Mestre e Senhor Jesus ou, se alguém preferir: “seguir sua bliss”, na proposta do mitólogo Joseph Campbell. Deve haver uma prática diária de oração e/ou meditação, incluindo o estudo e reflexão em torno de conteúdo espiritual nobre, como os Evangelhos canônicos, além de atividades semanais de contato com o Místico, por meio de encontros com outras pessoas que portem propósitos símiles de Espiritualidade autêntica. Essas atividades, além de se seguir a própria consciência e vocação, no campo profissional e pessoal, devem preceder qualquer iniciativa no domínio sombrio da própria psique.
Garantida a sistemática do “trabalho com o Sagrado”, retornamos à questão do “trabalho com a sombra”. E, no que tange ao “desejo perverso”, disse há pouco tratar-se de uma ferramenta inteligente de potencialização do esforço salutar de integração de partes da psique ocultas no inconsciente, porque a expressão já remete o aprendiz do bem ao fato de ser algo relacionado ao que é considerado socialmente “pervertido” e, por isso, pertinente ao domínio do que se lança na sombra. Além do que, como o outro artigo desse binômio conceitual afirma ser um “desejo”, fica revelada, por esse motivo, uma pulsão maior à manifestação, uma urgência apresentada pela mente do indivíduo, que procura sempre se fazer coesa e, dessarte, saudável.
Cabe, neste ponto, fazer o importante destaque do que pretendemos exatamente dizer por algo “perverso” ou “pervertido”. Claro que não pode ser alguma ação de fato malevolente, porque ou estaria no campo do crime (ficando passível de punição legal), ou seria imoral (cabendo reprimenda ético-espiritual da “voz da consciência” de quem não for psicopata) ou feriria os “bons costumes” (fomentando as naturais retaliações sociais correspondentes), tudo isso de acordo com cultura e época. O que aqui dizemos como “desejo perverso” pode estar no campo de experiências fantasiosas ou não, que fiquem no âmbito de questão íntima e sigilosa (como Jung costumava colocar o “trabalho com a sombra”), ou ainda aparecer em vivências culturalmente aceitáveis, embora, eis a questão: afrontem a visão mais moralista e conservadora do que seja o bem e o bom, em certo tempo e lugar.
Vou exemplificar. O “desejo perverso” de alguém pode ser o investimento de tempo em jogos eletrônicos de violência, em que impulsos à brutalidade sanguinária são canalizados e essas tendências são, digamos, acalmadas, no caldeirão gerador desses ímpetos à barbárie. Essas trações são profundas e muito presentes no ser humano médio da Terra de hoje, e não será à base de teorizações teológicas, morais ou “educativas” que deixarão de existir. Vão sendo atenuados, no correr dos séculos, mas muito gradativamente, e muitos autores discordariam de mim e afirmariam que a inclinação à carnificina do ser humano da atualidade é a mesma de tempos antigos, apenas mais mascarada, superficialmente ocultada por um verniz social pouquíssimo eficaz em sua contenção. Esse impulso aos embates sangrentos tem fomentado tragédias em escala individual, como os crimes passionais bem o retratam, e, outrossim, em expressão mais ampla, quais os confrontos bélicos entre povos.
(BTA) – Fico triste, só em ouvi-la dizer isso. Morro de inveja de quem tem satisfação em “brincar” com esses inofensivos jogos eletrônicos, acompanhado ou não, on-line, por “companheiros de guerra”.
(EEA) – Mas você se dedica a outros gêneros de “desejo perverso”, o da periódica (digamos semanal) licença a extravagâncias à mesa, o que canaliza o impulso primitivo de sobrevivência, em meio a frequentes e graves privações de víveres, que aconteceram durante milênios sobre milênios de existência do ser humano sobre a superfície deste planeta.
Sendo feito de modo regrado, como acontece nos jogos eletrônicos, ou na prática de modalidades de atividade física, sejam as de confronto corporal direto das artes marciais ou as de confronto físico não tão ostensivo dos esportes de equipe, as regras têm o efeito “civilizador” dessas expressões de agressividade sanguinária — que seria demasiado destrutiva, não fossem essas regras.
Você ainda se aplica a assistir a filmes ou a minisséries de conteúdos complexos, que dinamizam processos de elaboração de frações da psique ignoradas, para que não emerjam de modo caótico, na vida consciente ou nas ocupações de seu período diário de vigília (acordado).
Além do que, combater, aberta e continuamente, ano sobre ano, toda expressão de preconceito, como você vem fazendo, há quase quatro decênios, na vida pessoal e diante das multidões, ajuda a si e às pessoas que o ouvem a atenderem ao “desejo” tido como “perverso” de, por exemplo, se fazer sexo antes do casamento, divorciar-se de cônjuge com quem se tenha dinâmica incorrigivelmente tóxica ou unir-se em núpcias (formalmente ou não) com uma pessoa do mesmo gênero.
(BTA) – Você consegue ser bem-humorada, profunda, esclarecedora e severa, simultaneamente, Eugênia. Mais algo a aditar ao tema?
(EEA) – Que se preste atenção aos resultados dessas atividades, como uma vital válvula de verificação, para não se incorrer na prática do mal, de fato. Nesse particular, como a psicologia profunda corretamente leciona, o contato correto com a sombra leva o indivíduo a se sentir mais motivado, criativo e feliz. Isso nos remete, mais uma vez, ao que nos informou o Cristo-Verbo: que avaliássemos a árvore pelos frutos. Os frutos devem ser bons, para que se possa entender que a árvore seja boa.
Além disso, não temos mais nada a acrescentar. Por sinal, já falamos o suficiente para religiosos convencionais — os mesmos que condenaram Jesus à cruz — julgarem que estamos propondo imoralidades perturbadoras.
(BTA) – Ignorância profunda de como a mente humana funciona.
(EEA) – E maldade mal dissimulada também. Quem tem ânsias de parecer mais virtuoso, aos moldes do que é propalado por uma época e cultura, ou seja, uma virtude de superfície, eclode psicologicamente em manifestações de fato perversas e criminosas, como as hipocrisias e hediondezes de religiosos e religiões, no correr da história e em deploráveis eventos presentes, nos dispensam do esforço de aqui exemplificar aquilo a que aludimos.
(Diálogo mediúnico travado em 18 de julho de 2026)
