No final do século XVI, dois de meus mais diletos filhos desceram ao plano físico. Reencarnaram em Paris… na França dos huguenotes… Eram protestantes. Foram perseguidos amargamente e, em 1572, conseguiram escapar à matança da “Noite de São Bartolomeu”, que ceifou mais de quarenta mil vidas.

Imigraram para o que viria ser o Estado da Luisiana, dos Estados Unidos da América, e lá começaram vida nova, construindo uma igreja e constituindo pequena comunidade em torno dela.

Eu os inspirava de perto, tentando amenizar seu radicalismo dogmático. Meu filho Gerard era o pastor da pequena comunidade. Meu filho Maurice, seu irmão biológico à época, deficiente físico, acompanhava-o, auxiliando-o na condução da pequena célula social. Viveram sós, durante mais de três décadas, naquele exílio distante, infelizes, castrados, atordoados por visões teratológicas do inferno, cheios de esperanças, porém, de usufruírem, um dia, as delícias do paraíso, ao lado de Nosso Senhor Jesus.

Fiquei triste com a demora em abrirem as mentes para a Nova Era (*1), mas eles conseguiram. Meu filho Gerard voltou, na condição de importante iluminista, na mesma Paris que o abominou no século XVI. Desta vez, no final do século XVIII, uma Paris revolucionária acatava-lhe as ideias vanguardistas, com gosto. Escrevia panfletos com ardência e verve ímpares, e seu pensamento inflamava multidões… Eu o ajudava na época, mais uma vez, inspirando-o de perto, tentando, dentro do possível, reduzir seu calor revolucionário, consciente de que estávamos, todos, da Outra Dimensão de Vida, do custo que teria tal postura rebelde, em termos de vidas humanas. Auxílio esse um tanto inglório, no que tange a reduzir o banho de sangue que se seguiria a tais episódios de eclosão em massa do ideal de liberdade, sem freios, num primeiro instante, pelos séculos numerosos de repressão coletiva de todos os direitos humanos, que constituiu o período medieval.

Maurice, então um importante funcionário do governo monárquico decadente, tentava safar-se do clima de insurreição, e, assim, procurava, tanto quanto estava ao seu alcance, estar neutro e afastar-se de uma identidade muito estreita com o governo, para que trabalhava, cada vez mais odiado.

Maurice e Gerard, com outros nomes naquele século, chegaram a se encontrar, mas um abismo se havia formado entre os dois, e embora o incendiário panfletista tivesse tentado empolgar o pacato burocrata a participar dos ventos revolucionários que pervagavam, violentos, por aqueles dias longínquos, na magnífica “Cidade Luz”, meu filho Maurice preferiu preservar o pescoço − literalmente, da guilhotina, no que teve sucesso, diferentemente de seu irmão de outras vidas, irmão do espírito de sempre, que acabou, numa das reviravoltas do turbulento período revolucionário francês, ele mesmo sendo decapitado, ante a multidão sequiosa de sangue.

No século XIX, Paris estava em polvorosa, novamente, desta vez com outra ordem, bem diferente e mais profunda, de revolução, com o fenômeno das “mesas girantes” (*2). Providenciei para que Gerard nascesse em corpo de mulher, a fim de aprisioná-lo numa existência de introspecção e, com isso, fazê-lo ouvir melhor minha voz mental, nos recôncavos de seu ser, por natureza revolucionário. Agora, pretendia que ele sintonizasse com esta outra ordem, mais elevada, de revolução. Queria que introjetasse, em profundidade, ideias de serenidade e paz. E, de fato, conseguimos fazer isso, relativamente bem. Gerard tornou-se médium, importante psicógrafa, que ajudou Allan Kardec, no seio de sua intimidade, a obter as respostas dos Imortais, para suas questões pertinentes sobre destino, vida e morte, significado e finalidade da existência humana.

Maurice, a essa altura, reencarnara na condição de refinado aristocrata, que participava de algumas reuniões seletas do grupo parisiense, liderado pelo professor Rivail (*3) mas se mantinha, mais uma vez, como no século anterior, a certa distância do vórtice de controvérsias geradas, pelas publicações de Kardec, no meio erudito da Meca cultural do mundo que era a Paris daquele tempo.

Chegou, porém, a hora de Maurice arregaçar as mangas e expor-se, ante a multidão, nas mesmas propostas revolucionárias de sempre de meu filho Gerard, alma com forte compromisso com a evolução planetária. E, assim, segue ele hoje a seu lado, expondo-se e participando ativamente de importante movimento de renovação de ideias, sentimentos e filosofia comportamental das multidões. Maurice, o paraplégico do corpo no século XVI, paraplégico das emoções no século XVIII e paraplégico das ideias no século XIX, é agora o homem integral que sabia viria a ser, de quem hoje muito me orgulho e me sinto feliz. Maurice, agora, só falta superar a paraplegia do espírito e, assim, aprender e saber sentir-se feliz… Sei, contudo, que como superou as outras formas de deficiência, também essa saberá transcender… e sei também que isso não demorará muito, ainda que custe um século, mais um século na minha espera de mãe extremosa… Enquanto isso, todavia, meus dois queridos filhos fazem maravilhas… alimentando as massas de conceitos e realizações grandiosas… e eu os secundo de cá, com meu carinho e amor de mãe, de séculos de séculos infindos…

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Eugênia-Aspásia (Espírito)
27 de setembro de 2003

Post Scriptum:

Meu muito estimado amigo e irmão […] completa hoje 30 anos de idade.
Felicidades, […].
Que a sua atividade bendita, no Salto Quântico, com seu bom senso, dinamismo e criatividade ímpares, converta-se em bênçãos para milhões de criaturas, além dos milhares que já atinge hoje, diretamente.
São os votos do seu amigo e irmão de séculos…
Benjamin.

(*1) Eugênia parece, neste momento, fazer alusão, com “Nova Era”, não propriamente ao que se costuma entender com a expressão, mas aos ares renovadores do espírito moderno: de democracia, racionalidade e ciência aplicada e seus naturais desdobramentos na tolerância a minorias, diferenças socioculturais e livre-pensamento.

(*2) Ocorrido em salões refinados de toda a Europa, mas de Paris em particular, em meados do século XIX, em que os espíritos se manifestavam através de “fenômenos de efeitos físicos”, de modo que moviam, levantavam e giravam mesas, em ambientes fechados, respondendo a perguntas dos circunstantes, através de pancadas feitas em função de criarem um código cifrado de comunicação com os vivos na matéria.

(*3) Allan Kardec.

(Notas do Médium)