Hipollyte Lèon Denizard Rivail (*1) nasceu em 3 de outubro de 1804. Neste dia 3, portanto, completamos 199 anos de seu último reencarne. Curioso, porém, como, depois de dois séculos de seu nascimento, ainda está extraordinariamente à frente da linha média de cosmovisão no planeta.
Pedagogo, gênio ímpar. Antes que surgisse a publicação de “Da Origem das Espécies” (1859), o clássico de Charles Darwin, que inaugurou, para as ciências, a era do evolucionismo (que hoje impregna todo o conhecimento e forma de pensar humanos), Kardec, em nome dos Imortais que compilara em obra lapidar de síntese (*2), declara que não só as espécies evoluem, mas também os indivíduos; não só em seus corpos, mas também em suas estruturas espirituais. Assim, lançou a ideia revolucionária, antes de Darwin, quatro vezes mais completa do que o egrégio paleontólogo o faria, dois anos depois.
No ápice do materialismo científico, em plena onda do movimento positivista francês, que teve seu expoente máximo e criador em Augusto Comte, vem a lume a obra fundamental do Espiritismo: “O Livro dos Espíritos”, em abril de 1857.
Hoje, não se tem noção clara da dimensão do vanguardismo de Kardec. Quando poucas pessoas cultas toleravam a ideia de que a espécie humana possuía ancestrais comuns com os símios, o insigne pedagogo de Paris publicou, secundado por ilustres pensadores desencarnados, que “do átomo ao arcanjo, tudo se encadeia na criação”. Era de Kardec a seleção do que deveria ou não ser publicado. A sua mundividência está, assim, expressa em cada linha de seu “Pentateuco” (*3).
Em matéria sexual, então, a mais melindrosa para as gentes provincianas de todos os tempos, Kardec deu um verdadeiro espetáculo de coragem, audácia e abertura mental. Propugnou publicamente a necessidade do divórcio (com relação a que, estranhamente, até hoje, mesmo no meio espírita, existe forte resistência) e fê-lo no livro de veia religiosa de seu conjunto de obras seminais, “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, publicado no longínquo ano de 1864, para deixar bem claro o quanto assentava tal princípio em raciocínios de fundo moral e espiritual. Por sinal, naquele mesmo ano, celeuma curiosíssima acontecia na Meca cultural daqueles dias: duas jovens moças haviam cursado e concluído a faculdade de Direito, e os intelectuais discutiam quanto a terem ou não direito de serem diplomadas, já que eram componentes do sexo feminino. Como um guerreiro do espírito revolucionário que representava (obviamente o Plano Superior de Vida está sempre muito além do que os preconceitos do plano físico podem permitir entrever), Kardec veio a público defendê-las heroicamente, a despeito de vozes inflamadas que se levantaram contra ele… inclusive dentro do meio espírita.
Voltando ainda a “O Livro dos Espíritos”, Kardec e os Mestres da Humanidade, que com ele confabulavam, atraídos para os médiuns que os canalizavam, por lei de afinidades que nutriam com o insigne codificador, afirma que o espírito não tem sexo e que reencarna conforme necessidades evolutivas específicas, indiferentemente ao sexo em si (*4), opinião que até mesmo Lèon Denis, um dos maiores expoentes da história do Espiritismo, cinquenta anos depois, tinha dificuldades em aceitar, como revela em seu clássico “O Problema do Ser, do Destino e da Dor”, publicado em 1909, em que diz que não era de muito bom tom que os espíritos trocassem de sexo, de uma encarnação para outra, já que certas “anomalias” poderiam surgir, quais “essas mulheres viragos” e aqueles homens “efeminados” – opinião, aliás, apesar da estranheza que causa aos mais informados hoje, avançada para a época, porque Denis só fez dizer que não seria muito desejável que tal ocorresse, em vez de taxar de criminosos ou de, no mínimo, “pervertidos” os psicotipos menos ajustados ao “novo sexo” (como a classe mais culta do planeta, no início do século XX, seguindo Freud, era inclinada a interpretar a ocorrência da homossexualidade, por exemplo). Kardec, todavia, e os Espíritos Superiores que com ele interagiam, estavam infinitamente acima de todas essas premissas falsas de verdade puritana que até hoje contaminam de pseudo-moralismo os ambientes ditos religiosos.
Que acordemos para a Nova Era. Se somos seguidores de Kardec, temos que pensar e agir como homens e mulheres da vanguarda, abertos, cultos, ecumênicos, sem visões bairristas, sectaristas, elitistas ou moralistas (em sua acepção negativa). Só o espírito e sua evolução importam. A evolução moral começa pela compreensão, tolerância e convívio pacífico, civilizado e harmônico com a diferença. Como disse Kardec, o Espiritismo é “doutrina” que acompanha os avanços da Ciência e do conhecimento humanos, e, por conta disso, determinou o ínclito codificador que onde a Ciência contradissesse um ponto da “doutrina”, que se a abandonasse nesse ponto, para se seguir a Ciência.
Até hoje Kardec é incompreendido ou compreendido incompleta e imperfeitamente. Se, por esses dias, o ilustre lionense reencarnasse, encontraria o escárnio, a rejeição e o reproche, a começar do próprio seio espírita.
Mas a marcha do progresso é irrefreável… porque é da Vontade de Deus… e ai daqueles que opõem ou intentam impor barreiras a ela, porque o preço que pagarão, ainda nesta vida, será imenso, como efeito automático das energias cármicas, digamos assim, que acumulam em sua direção, e este caldo, cedo ou tarde, tanto pior quanto mais tarde, entornará… tragicamente.
Intelectuais e religiosos uniam-se ao sentimento de escândalo, ante o que dizia Kardec… Estão agora cada vez mais condenados ao ostracismo, sem que conheçamos detalhes, inclusive, do ônus que tiveram de suportar, por terem estado contra a Espiritualidade Superior e seus intentos soberanos, em nome de Deus, já mesmo naquele século de ataques sistemáticos ao discípulo de Pestalozzi (*5).
Atualmente, de modo idêntico, os genuínos representantes de Kardec e do Plano Maior de Vida encontram resistências a seu trabalho, que realizam em nome das Grandes Autoridades Espirituais que representam no plano físico de vida… mas ai daqueles que se candidatarem ao posto de “resistências” à Vontade de Deus… Serão sumariamente varridos, pelos ventos da História… saberá Deus para onde… e de que forma…
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Eugênia-Aspásia (Espírito)
3 de outubro de 2003
(*1) Nome real de Kardec. “Allan Kardec” foi pseudônimo utilizado por ele, a partir da revelação mediúnica de que teria usado esse nome em remota existência, como sacerdote druida.
(*2) Eugênia faz alusão a “O Livro dos Espíritos”, sobre que falará novamente nos parágrafos subsequentes, mas de forma expressa.
(*3) “Pentateuco Kardequiano”: os cinco livros basilares do Espiritismo, publicados por Kardec, em Paris, entre 1857 e 1868, nesta ordem: “O Livro do Espíritos” (1857), “O Livro dos Médiuns” (1861), “O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), “O Céu e o Inferno” (1865), “A Gênese” (1868).
(*4) Questões 200 a 202 de “O Livro dos Espíritos”, incluindo os comentários do codificador, ao final das três.
(*5) Joahnn Heinrich Pestalozzi (1746-1827), grande pedagogo suíço, deveras influente no século XIX, em cujo instituto educacional, por ele fundado: “Internato de Iverdon”, foi frequentado por jovens de toda a Europa. Kardec foi-lhe muito chegado e dele sofreu forte influência.
(Notas do Médium).