Às vezes, com gentileza, alguém se aproxima, na verdade pretendendo controlar. Se alguém tenciona adulá-lo, para poder fazer, por seu intermédio, o que quiser, deixe claro, sumariamente, que não deixará de usar sua razão e discernimento, e desligue a pessoa de seu convívio, caso ela insista em invadir o território do seu livre-arbítrio.
Perdão não é aceitar o desequilíbrio: é não guardar mágoas e estar até disposto a ajudar a pessoa que tenta fazer o mal, conscientemente ou não, se é que ela realmente precisa de ajuda, se é, principalmente, que ela de fato quer essa ajuda.
Não tenha medo de criar inimigos, se já está tratando com quem age como seu antagonista. Trate inimigos como tais: com cortesia, diplomacia e respeito. Mas trazer o assassino para dormir ao seu lado não o tornará melhor, nem a você: apenas denota desequilíbrio de sua parte, uma neurose suicida, eivada de vaidade descabida de ser melhor ou de submeter o outro ao falante de sua vontade, além de dar oportunidade, ao outro, de cometer novo crime.
Seja coerente. Não suponha que fechar os olhos ao mal fará com que o mal desapareça. Enfrentar o mal como tal é a melhor forma de aumentar a probabilidade de, realmente, convertê-lo, um dia, em bem. Ignorá-lo como sendo mal, favorece o mal maior, em medidas imprevisíveis. Aja com racionalidade e responsabilidade, para que a emoção disparatada não tome ares de espiritualidade sublime ou intuição divina.
A pessoa que não vê falhas em si, só nota boas intenções no próprio coração e reputa aos outros todas as falhas abomináveis do mundo, acusando-os de injustos, ingratos ou egoístas, por não se submeterem a seus caprichos, não é alguém inocente ou tolo – é pessoa tão mais perigosa quanto menos consciência tiver de sua atitude autoritária e manipuladora. É uma vampira de almas, de sonhos e de destinos, a tudo desejando açambarcar e destruir, para dar livre vazão a seus intentos egoicos, sob o custo da vida, dos objetivos e dos sentimentos de outras pessoas.
Cuidado com os “lobos em pele de cordeiro”, nos dizeres de Jesus. Sorrisos nem sempre significam sorrisos. O jacaré abre linda bocarra, cheia de dentes polidos… mas seu desejo profundo é tão-somente devorar a presa. “Pelos seus frutos os reconhecereis”, completou o Mestre… Os corações unidos ao Alto espalham o perfume do amor, da esperança e do otimismo, da sabedoria e da paz, por onde passam, ao passo que os agentes das trevas, apesar de muitas vezes doces e agradáveis no trato social, costumam deitar o fel da malícia e o veneno da calúnia, com incrível facilidade, onde estejam, com quem estejam, sempre, é claro, sentindo-se inocentes e corretos, amiúde preparando o terreno para o bote fatídico, com toda forma de lisonja e agrados, assim aliciando os corações incautos para a hipnose escravizante em que se comprazem…
Alerte-se, para esses “amigos” tenebrosos… Suas vozes estão nos locais menos esperados, tanto quanto a voz de Deus aparece onde menos se pensa. E isso se dá como um desafio ao desenvolvimento da consciência, que deve transcender, em seu esforço evolutivo, as aparências e as conveniências, para enxergar os fatos e os acontecimentos, avaliando-os por seus valores intrínsecos. Pais mesquinhos podem se fazer agentes de destruição de seus filhos, preocupados em usá-los para seus propósitos pessoais, tanto quanto um rival honesto pode ser canal para uma verdade dura de ser ouvida. Reconhecer a voz verdadeira e a mentirosa, em tais situações-limite (muito comuns, porém) é desafio máximo para a criatura humana da Terra, e é por isso que poucos são os líderes genuínos e a maior parte da espécie humana é constituída de “massa da manobra”. Sair do comodismo de se ajustar à loucura, maldade e neurose alheias exige esforço, disciplina e coragem que poucos estão dispostos a desenvolver ou potencial para desdobrar de imediato. Mas, por isso, paga a alma um preço muito alto: o da própria vida, da própria felicidade, da própria paz… vivendo frustrada e infeliz… cada vez mais se desconectando de seu centro, gemendo e debatendo-se contra o mundo, clamando contra inimigos imaginários e, por fim, sentindo-se vitimizada, injustiçada e perdida, por motivos incompreensíveis à sua visão limitada, com o que deduz, arrogante e presunçosa, totalmente indevidos.
Pelo fato de alguém nos amar, dizer que nos ama ou acreditar que nos ama, não se segue o fato de que faça o bem para nós, realmente. O amor, na condição humana, está eivado de desatino, porque o ser humano costuma abandonar a voz da razão, pela conveniência das emoções. Se alguém dá amor a outrem, logo é visto como certo e bom. Mais uma vez, reforço: seja sumamente lógico: alguém só está com a razão, se estiver com a razão e não porque more em seu coração. Se não levar, caro amigo, muito a sério, esse alerta… somente bem mais tarde… talvez tarde demais… descubra que aquele alguém, talvez ele mesmo iludido desse processo nefando em si, não o amava de fato, mas apenas o acumpliciava, astutamente, para seu modo de ser, agir e sentir, fazendo-o de mera marionete para seus propósitos pessoais.
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Temístocles (Espírito)
18 de setembro de 2003