No hoje já clássico “Inteligência Emocional”, o psicólogo norte-americano Daniel Goleman apresenta, como uma das manifestações fundamentais deste tipo basilar de inteligência, a capacidade de adiar gratificações; de abdicar de um prazer fugaz e momentâneo, por uma satisfação mais profunda e duradoura, ainda que só possa vir a ser usufruída, após longo período de esforço e abnegação. É esse o princípio vivido por estudantes e profissionais de êxito, em todos os âmbitos da sociedade, que renunciam a pequenos prazeres e comodidades, em curto aprazo, para alcançarem metas ousadas e valiosas, a longo prazo. Quem só pensa em se divertir, a não ser que seja muito primitivo, psicológica e espiritualmente, em pouco tempo estará apenas com divertimento, e grandes e crescentes frustrações, de que intentará fugir, a toda hora, por ainda mais divertimento, que se fará, todavia, progressivamente, mais vazio, triste e, por fim, enlouquecedor, destrutivo e fatal!…

A cultura do prazer esqueceu-se de fazer a respiração. Existe inspiração e expiração em todos os processos da vida. Que dizer de alguém que só pretendesse inspirar, para estar devidamente oxigenado? Em poucos minutos, estaria morto. A crise de asma, de forma grosseira representada, constitui exatamente isso: uma incapacidade de expirar que, obviamente, também impede a inspiração. Técnica moderna de Fisioterapia, para combater um surto asmático constitui, precisamente, em fazer curta inspiração, seguida de longa e forçada expiração, para reverter o processo “fisiológico” da asma brônquica. Durante a crise asmática, os alvéolos pulmonares têm suas paredes intumescidas, assim o mesmo acontecendo com os duetos que o conectam à traquéia, de modo que a área para as trocas gasosas, no interior dos brônquios, reduz-se drasticamente, causando a sufocação. Ou seja: o vazio interior dos pulmões é imprescindível para a manutenção da vida… um “oco” que “enche” o corpo de vida… um interessante paradoxo-metáfora que demonstraremos presente em uma série de outros fenômenos da vida, ensinando-nos figadal lição na arte do bem viver.

É axiomático, para qualquer pessoa, com um mínimo de bom senso, que é necessário apor limites ao prazer, a fim de que o próprio prazer não seja inviabilizado. Se alguém, por exemplo, come e não para, pode chegar ao hospital, em poucos minutos, impossibilitado de respirar. O estômago, ultra-dilatado pela ingestão exacerbada de alimentos, comprimindo o diafragma (*4) para a frente, impede-lhe o movimento vital. A cultura hedonista impera, entretanto, enlouquecendo as massas humanas e, por isso, a dor explode, incontrolável, na vida de muitas pessoas, em crises vulcânicas, como erupções violentas do sofrimento que foi renegado, dos prazeres infinitos de que se deveria haver abnegado. Suas vidas entram em ruínas, porque elas não sabem administrar sua alegria.

Para se obter alegria e prazer, com eficácia e continuidade, é preciso renunciar a muitos deles. Usando a mesma analogia de antes: ninguém pode somente inspirar a todo tempo. Além dos efeitos naturais, gerados pelo desequilíbrio da compulsão, como doenças e comportamento patológico, um certo padrão de energia negativa se acumula, até a explosão de um dique psíquico… que ninguém consegue deter, depois que acontece. Ninguém precisará sofrer muito, se souber, antes, renunciar muito, com estratégia e sabedoria. A renúncia é um prenúncio do céu, já nesta mesma vida, o caminho do paraíso. O “jejuai e fazei penitência” que aparece no Evangelho, dito por Jesus, faz alusão a esse fenômeno. Quem não controla sua dor, na disciplina e na administração de sua vida, é tomado e detonado por ela, assim como o pneumologista que pede ao paciente que largue o vício do tabagismo. Sem escolher a “dor” da abstinência, poderá provar, em curto espaço de tempo, a dor muito maior da metástase na garganta e/ou nos pulmões, falecendo, excruciado, entre dores lancinantes e uma asfixia aterrorizante,

Tudo é cíclico na vida. O dia e a noite. Não se pode viver na contínua efusão de atividade, ou o organismo colapsa: ao trabalho o repouso deve-se seguir. Após o verão, o outono prepara a natureza para a morte aparente do inverno, a fim de que, quando tudo parecer perdido e findo, a primavera fazer a vida ressurgir, em espetacular explosão de vitalidade e renovação. A vida, por fim, é seguida de morte, para, logo mais, haver o renascimento na existência espiritual, que cessa mais à frente, para que se ressurja, no plano físico, pelas portas da reencarnação…

A nossa metáfora do vazio que, paradoxalmente, gera a plenitude, segue, pujante… Devem existir pausas nas músicas, ou a música não acontece. São as pausas de notas e tons que constituem os ritmos, a harmonia e as melodias. É nos silêncios “inaudíveis” múltiplos que a tecidura da música é constituída. O mesmo se pode dizer dos átomos, na constituição da matéria. A matéria, como dizem os físicos modernos, é constituída de 99,9999% de vácuo. Para que possa oferecer a ilusão de solidez, a matéria é cheia de… vazios… Da mesma sorte, a felicidade só existe quando preenchida por hiatos de renúncia à alegria exagerada, ou a sequência ininterrupta de prazeres fará a felicidade degringolar numa crise, mais cedo ou mais tarde, mais leve cedo, mais grave se mais tarde. Quem tiver qualquer dúvida sobre isso, que observe pessoas que adotaram a filosofia do prazer sem medidas, abarrotando consultórios psiquiátricos, clínicas de desintoxicação ou, mais comumente, penitenciárias e cemitérios… que se estendem em horrendos suplícios, nas regiões infernais de além-túmulo… É o nirvana (*5) que, por fim, conduz ao Absoluto… O desaparecimento completo de desejos materiais (de forma natural, como decorrência de um longo e cuidadoso processo de amadurecimento psicológico, e não pela repressão de instintos) faz o espírito ascender à Luz Divina.

O vocábulo lusitano “sacrifício” vem do grego “saccer”, que significa “sagrado”. Só se atinge o sagrado, o permanente, o profundo, o substancial, o transpessoal, o divino, por meio de sacrifícios: do efêmero, do superficial, do circunstancial, do egóico, do pessoal.

Rematado truísmo, para o bom senso, que é necessário criar válvulas para o prazer, para que ele mesmo possa subsistir. O que é uma válvula senão um mecanismo de suspensão do funcionamento, de esvaziamento de um certo órgão ou aparelho? O piloro funciona como uma espécie de válvula, entre o estômago e os intestinos, por exemplo. O sistema digestivo entra em pane, e o organismo por inteiro, por consequência, se esta, como outras numerosas válvulas espalhadas por todo o corpo, como as do coração, não funcionarem corretamente. No coração, ventrículos e artículos estão igualmente separados por válvulas, que propiciam a correta divisão de sangue venoso e arterial e os encaminha para a renovação oxigenar e para a distribuição por todo o organismo, respectivamente, assim como até veias, se têm suas funções valvulares comprometidas, fazem as vernacularmente conhecidas “varizes”.

Um motor a combustão, dos que são utilizados hoje, na engenharia mecânica de automóveis, apresenta, igualmente, válvulas que propiciam, ao veículo, utilizar a força de múltiplas e milimetricamente calculadas explosões, no imo do motor, que são transformadas, pela engrenagem, em movimento do automóvel. Mas se o carro não liberar as pequenas explosões, ou não anda, ou explode literalmente.

Crie seu culto, seu ritual próprio, ao seu agrado, de oferenda a Deus de seus “sacrifícios”.  Ofereça diretamente ao Criador, a Jesus, a Maria, a seu Anjo-Guardião ou às Forças do Universo, o seu “sacrifício” pelo bem, pelo progresso, pela verdade, pela vida e pela sua própria felicidade.

Reitero: administre sua dor ou ela o possuirá e o destruirá. Seja sábio e conduza, dentro dos limites de suas possibilidades, as forças da vida, ou tudo se desgovernará em seus caminhos. Sem disciplina, tudo entra “em parafuso” e logo é precipitado em fim trágico. Seja você aquele que compreende o fluxo da vida, e, assim como as pulsações do coração, diástole e sístole, faça você também sua pulsação de felicidade: alegria e dor, corretamente gerenciadas, para que a balbúrdia e a infelicidade não lhe venham visitar em forma de caos e desgraça…

Benjamin Teixeira  de Aguiar (médium)
Eugênia-Aspásia (Espírito)
06 de setembro de 2003

(*1) Durante o texto, a própria autora espiritual explica a origem do vocábulo.

(*2) Verbete de origem chinesa, que serviu de base para nomear uma das mais importantes e influentes religio-filsofias do Oriente, o Taoísmo, de fundação atribuída ao sábio Lao Tsé, no século VI a.C., e significa, numa tradução muito forçada: “o caminho”, no sentido de fluxo, de estrada mística que conduz à Totalidade, a uma visão cósmica do mundo.

(*3) Este artigo de Eugênia é, simplesmente, essencial para a compreensão profunda da felicidade, e mesmo para sua viabilização. Lembra-nos dois outros, recém-publicados, de sua autoria também, a que reportamos o prezado internauta (presente nos arquivos deste site): “O Mito da Felicidade de Hollywood” e “A Voz de Deus”. Os três, creio eu, constituem uma trinca axial, para a compreensão correta e eficaz, prática e madura da felicidade.

(*4) Músculo essencial ao processo respiratório, responsável pela popularmente conhecida “dor de facão”, quando alguém é golpeado de surpresa no abdômen e “não consegue respirar”.

(*5) Conceito búdico que equivale, mui grosseiramente, à nossa ideia (racional-científica-ocidental) de “nada”, mas que melhor pode ser traduzido por “não-ação”, o que, obviamente, é bem diferente de “nada”, mas que se constitui na renúncia a posicionar o ego no mundo e, assim, não interferindo na percepção das coisas, pela ausência de elementos projetivos do eu, no próprio processo da percepção, enxergar “a verdade última das coisas”, que se costuma, pelos orientais e orientalistas, chamar-se de “iluminação”.

(Notas do Médium).