Espírito Eugênia-Aspásia − Quero que me interrogue, que faça um diálogo comigo.

Benjamin Teixeira de Aguiar − Sobre quê, Eugênia?

EEA – Sobre sexualidade.

BTA − Novamente? Esse tema não tem aparecido em nossos estudos já com frequência?

EEA – O Dr. Sigmund Freud tinha razão, quanto às numerosas problemáticas apresentadas pelo ser humano médio da Terra de hoje, em relação à sexualidade. O tema está longe de ser esgotado, muito menos de ser devidamente abordado para a massa, de modo claro e efetivo, e com as devidas funções terapêuticas.

BTA − Ao você propor o retorno ao tema, suponho que tenha algo em mente. Poderia nos dizer do que se trata?

EEA – Sim, a sexualidade adolescente. Os jovens estão precocemente ativados em sua sexualidade, como é muito óbvio a qualquer observador. Já em criança, recebem atualmente tal carga erótica, ativadora de seus instintos, que chegam à adolescência sentindo-se frustrados por “tanto tempo de espera”. Assim, não raro aos 12 ou 13 anos, meninas e meninos iniciam-se, de modo completamente extemporâneo e, é claro, inadequado, sua vivência sexual.

BTA − Embora concorde com você, Eugênia, poderia nos dar um referencial mais seguro, para considerar tal despertar sexual “precoce”, a fim de não parecer que sua afirmação é arbitrária ou preconceituosa?

EEA – Sim. Nem mesmo fisiologicamente essas quase crianças estão formadas. Além do quê, iniciam-se muito cedo naquilo que, em verdade, exige-lhes bem mais do que apenas o preparo do arcabouço biológico: a vida sexual pressupõe de seus participantes maturidade psicológica, o que raros indivíduos, lamentavelmente, terão antes dos 30 anos de idade.

BTA − Eugênia!? Esse piso etário para o início da vida sexual não está exageradamente alto? Os adolescentes mais velhos (entre 15 e 20 anos), em grande percentual, têm já vida sexual ativa. Nem podemos comentar o que acontece com os jovens que estão na casa de 20 anos (tecnicamente, não mais adolescentes): os que não têm vida sexual ativa são quase tidos como doentes…

EEA – Entretanto, de fato, antes dos 30 anos, poucas criaturas na Terra têm estrutura psicológica suficiente para viver o sexo, sem relações de dependência, de manipulação, de busca de exercer domínio sobre outro, assim extravasando-se neuroses altamente destrutivas um no outro, em terríveis ciclos de arrasamento recíproco.

BTA − Mas essa maturidade parece ser também rara em outras faixas etárias.

EEA – Menos rara. Somente quando a maturidade psicológica permite que o ego esteja suficientemente consolidado, para não se vincular diretamente à existência de um relacionamento, para não validar sua razão de existir na relação com outra pessoa, é que as relações mais saudáveis podem florescer. É por essa vinculação direta entre ser e estar com alguém que, ao término de algumas relações, jovens frequentemente se sentam solapados por uma tragédia inominável, sem razão para viver, sem chão, sem alma, desesperados.

BTA − E o que dizer aos adolescentes ou aos pais de adolescentes, que nos leiam?

EEA – Que procurem reforçar todas as relações de amor não-sexual, a fim de que o jovem tenha referenciais seguros de afeto e, por consequência, de autoamor (nessa fase, como na infância, a autoestima ainda está estreitamente ligada ao amor que se recebe), para que se sofram menos abalos com as naturais decepções afetivas que ocorram. De fato, não podemos pedir que os adolescentes vivam castidade, numa era de liberdades, nem podemos concitar os pais a pregarem um costume que não mais está em voga − esse seria o melhor caminho de romper os últimos laços de comunicação que poderia haver entre as gerações. Mas podemos sugerir que o jovem, em vez de viver menos, que viva mais amor. Explico-me: que não se atenha a seus namoricos ou namoros sérios − ainda que muito sérios (esses são até mais perigosos, em termos de implicações de eventuais rupturas, ou mesmo de vícios da codependência no transcurso da relação). Que, em vez de apenas viverem seus amores românticos, que invistam pesado em seus amores familiares e amicais.

Uma instituição, por exemplo, que sugerimos enfaticamente, e que, atualmente, anda severamente enfraquecida, é a do mentor. No passado, adolescentes viviam cercados de adultos e não isolados em seus redutos etários, como hoje acontece. Os antigos e altamente saudáveis elos de afeto e companheirismo que havia entre gerações diluíram-se com a cultura de massa, quase ao ponto do total desaparecimento. Assim, os muito jovens ficam privados de referências e guias, para enfrentarem adequadamente os desafios da idade, como crises de identidade e de amadurecimento de valores. A menina pré-púbere, por exemplo, poderia tecer maravilhosa relação de intimidade com sua avó materna ou uma tia mais jovem. Alguém que não seja diretamente associado à imagem de mãe ou que seja vista como tal, para que possa fazer as vezes de mentora. O garoto imberbe, recém-ingresso na adolescência, pode, por sua vez, fazer o mesmo. Esse confidente, ao reverso do confidente da mesma idade, não estaria tão inclinado a estimular os processos autodestrutivos e neuróticos peculiares ao adolescente, e, assim, ao reverso de desenvolver um ciclo vicioso de destruição recíproca, calmamente retiraria o jovem da beira do abismo, a cada vez que ele se sentisse   resvalando para ele. Obviamente, não estamos propondo o fim das relações de parceria com amiguinhos da mesma idade. Mas sim a ressuscitação dessa antiga classe de amigos (os amigos mais velhos), que compõe e de modo indispensável, a malha de ferramentas da Vida, para o amadurecimento seguro do jovem. Pais não podem exercer função de mentores. Nem coleguinhas da mesma faixa etária, que estão imersos em dilemas e confusões idênticas aos seus coevos. O mentor está numa condição intermediária entre o pai e o amigo-espelho. Não constitui a incômoda relação de poder e distanciamento que os pais inspiram, nem traduz a informalidade exagerada, totalmente descomprometida e normalmente irresponsável dos companheiros de mesma idade. O mentor, assim, representa um excelente recurso de intermediação, uma ponte que liga o jovem ao seu futuro, que liga o que ele é – um adolescente que não é mais criança, mas que também não é adulto ainda – ao que ele inarredavelmente terá que se tornar, para garantir seu equilíbrio e felicidade: uma personalidade amadurecida de adulto.

Avós, tios, amigos, mentores profissionais, estudantis ou religiosos, com próximo acompanhamento de pais e responsáveis, devem compor uma grande teia de ligações afetivas não-sexuais, imprescindíveis ao desenvolvimento completo, saudável e seguro da personalidade do adolescente. Em virtude de carências e falta de referenciais, muitos adolescentes envolvem-se com grupos, pessoas ou comportamentos inadequados, muitos deles nem sequer em consonância com sua natureza, apenas para se sentirem aceitos e amados, bem como com o sentimento de pertencerem a um grupo. Uma vida familiar sólida, como são unânimes todos os estudiosos em dizer, constitui uma das melhores vacinas para o envolvimento juvenil com entorpecentes e outras drogas, lícitas ou ilícitas, além de surtir efeito imunizador similar, em relação a comportamentos sexuais irresponsáveis.

BTA − É, Eugênia. Mas parece ser esse o grande drama das famílias modernas. Não parece haver candidatos seguros, para o desempenho da função de mentor.

EEA – O problema não é tão grande, se lhe concedermos mais atenção, se realmente nos preocuparmos com nossos filhos. Dificilmente, por exemplo, alguém terá acesso, principalmente nos grandes centros urbanos, a enormes conglomerados familiares, como no passado recente existiam. Mas mesmo no modelo da moderna família nuclear (pai, mãe e filhos), podem-se encontrar alternativas para esse feixe de relações fundamentais ao adolescente, como um amigo íntimo da família ou mesmo um dos irmãos dos pais, mais jovem, que se disponha a, digamos, semanalmente, encontrar-se com o adolescente, sem a presença dos pais, para que uma relação de intimidade e confiança possa surgir, a benefício do adolescente. Uma única tia, digamos, uma tia jovem, que esteja por volta de 30 anos ou pouco menos, pode servir de excelente embaixatriz dos irmãos mais velhos, ante seus filhos adolescentes ou pré-púberes, para que sejam devidamente conduzidos, na terrível crise de transição da adolescência. A figura feminina, para o exercício da função de mentor, é excelente, não só para meninas, como também para meninos. A natural tendência feminina ao acolhimento e ao cuidado é de ótima valia para tal atividade. Além do quê, tanto meninas, como meninos, tendem a se abrir mais facilmente com figuras femininas que com figuras masculinas. Assim, os maiores e mais difíceis desabafos – e também mais necessários de serem feitos – podem ser calados na porta da boca, se o mentor for um homem e não uma mulher de confiança. Evidentemente que há exceções, mas, se pudermos estabelecer uma regra: os mentores de pré-adolescentes e adolescentes devem ser figuras femininas adultas jovens, de preferência com relação de parentesco ou de amizade muito íntima com os pais dos jovens.

BTA – Interessantíssima essa ideia, Eugênia.

EEA – Essencial. Necessária. Que os pais não apenas leiam e concordem com o que estou dizendo. Que tomem providências efetivas nesse sentido, que escolham alguém com disposição a conversar e paciência para ouvir, que goste de crianças e adolescentes e que se disponha a ser mentora de uma ou mais crianças e/ou adolescentes. Que seja alguém de confiança e que possa se comprometer com essa responsabilidade ultra-séria, e que, por fim, estipule-se uma disciplina, nesse sentido, de, digamos, um impreterível encontro semanal do(s) adolescente(s) com a “tia-legal”, a fim de que os sentimentos de intimidade e de cumplicidade sejam favorecidos do pupilo em relação à mentora, e, com isso, esta possa acompanhá-lo mais cuidadosamente, sem perda de fases do processo juvenil, que sofre alterações dramáticas, em curto espaço de tempo. Por fim, deve haver um retorno do que se passa para os pais, mas não numa medida que comprometa a relação de confiança entre o jovem e sua mentora. Se, por exemplo, uma mãe ou um pai, notificado de alguma coisa que se passe com um filho adolescente, vier a “fazer um sermão”, baseado numa informação transmitida pela mentora, a quebra de confiança na relação pupilo-mentor pode ser definitiva e irreversível, a prejuízo do próprio adolescente e da fiscalização de eventuais futuras crises sérias por que o jovem venha a atravessar amanhã. Assim, o próprio mentor deve receber carta branca dos pais, para preservar alguns segredos, a fim de dar andamento ao processo de resolução das crises do adolescente, sem seu conhecimento. Acompanhamento psicoterápico e aconselhamento espiritual podem e devem ser utilizados, como recursos auxiliares desse processo, inclusive providenciados diretamente pela mentora, com financiamento dos pais do adolescente.

BTA – Muito interessante, Eugênia.

EEA – É um novo-antigo-modelo imprescindível à crise moderna de complexidade do mundo, em confronto com a inerente fragilidade da condição adolescente.

BTA – Mais algo a dizer sobre o assunto?

EEA – Não, satisfeita. Mas, como disse, que não se fique na mera concordância com o que disse – que compreendo a maior parte dos leitores entenderá por sensata – mas que se passe à prática, antes que se tomem graves e trágicas surpresas na vida dos filhos, algumas de difícil ou, quiçá (como no caso de mortes precoces) impossível reversão.

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
em diálogo com Eugênia-Aspásia (Espírito)
27 de dezembro de 2003