Benjamin Teixeira de Aguiar − Eugênia, você poderia nos dizer alguma coisa sobre o amor e seus eventuais desdobramentos sexuais?

Espírito Eugênia-Aspásia − Sim. Existem diversas escalas, digamos assim, de envolvimento das forças psicossexuais, quando dois indivíduos se aproximam. Para facilitar o entendimento do que falamos, paradoxalmente para muitos, faremos uso, primeiramente, do paradigma das relações entre pessoas do mesmo sexo, já que são elas as mais atacadas, nesse sentido. Deixará mais claro o que queremos dizer.

Duas pessoas do mesmo sexo podem ter uma relação de homoafetividade, sem homoerotismo nem homossexualidade. Toda pessoa psicologicamente saudável seja ou não gay, tem esse tipo de relacionamento: com o pai ou filho ou irmão ou amigo do mesmo sexo. Há pessoas, porém, que, embora nunca desdobrem em sexo sua atração por alguém, sentem um “clima no ar”, uma sensação de ela e de envolvimento emocional mais profundo, a ponto de sentir encantamento pelo outro. Neste caso, pode haver, afora admiração e carinho, já a presença de homoerotismo. Por fim, existem aqueles que têm atração fracamente homossexual, e mesmo assim, podem ou não concretizar seus desejos, mas, ainda que não materializem suas fantasias ou seus impulsos, têm já uma ligação homossexual com aquela pessoa do mesmo sexo. O mesmo se dá entre pessoas de sexos opostos, sejam ou não heterossexuais. Assim, existem as ligações heteroafetivas, sem heteroerotismo nem heterossexualidade (a ligação com o pai, o filho, o irmão ou o amigo do sexo oposto), assim como outras que têm toques de erotismo ou claramente de sexualidade, seja ela concretizada ou não, como tanto se costuma ver em ambientes de trabalho, em relações sociais ou mesmo, lamentavelmente, no seio das famílias.

BTA – Você me pediu que dialogássemos sobre esse tema. Por quê?

EEA − Porque as pessoas são exageradamente fixadas no tema sexual, desmerecendo e mesmo denegrindo relações belas e digníssimas, fulcradas no mais puro amor espiritual, por só quererem ver relações heterossexuais ou homossexuais, quando existe, no mais das vezes, lindas relações de homo e heteroafetividade. Somente bestas primitivas, mal saídas das cavernas, conseguem viver em função de sexo o tempo inteiro. Em ambientes mais civilizados, é a afetividade, tendo ou não pontas de erotismo ou sexualidade, que rege os relacionamentos. Eis que, quando se trata, por exemplo, do estabelecimento de relações duradouras, são os aspectos psicológicos, culturais e sociais que mais pesam e não os físicos. Quanto mais fisicidade há num indivíduo, na hora de priorizar suas relações, de qualquer tipo que seja, menos desenvolvida é sua psique. Da mesma forma, quanto mais evoluída uma consciência, não só estabelece ela vínculos emocionais com outras pessoas, por afinidades de valores, objetivos e mundividências, como mais facilmente consegue permutar um tipo de sentimento ou atração por outro, mais refinado e profundo, ou seja: a sexualidade por erotismo, e o erotismo por afetividade, processo esse que em psicologia e psicanálise chama-se de sublimação e que a vida em sociedade, principalmente as relações familiares propiciam e estimulam enfaticamente. Graças à sublimação, a vida em sociedade é possível e também há energia e condições psicossexuais para a realização de importantes projetos e realizações de interesse coletivo e intemporal.

BTA – Muito interessante. Mais algo a dizer?

EEA – Que aqueles que veem demais o mundo pelo tom sexual devem voltar um pouco os olhos para si porque, com segurança matemática, portam algum distúrbio, neurose ou trauma na área, se não camuflam mal, até para si mesmos, sua própria tendência nesse sentido. Há sexualidade nas relações humanas, ela é forte e profunda, mas não é a força maior a unir os seres humanos. A sexualidade não é pecaminosa, e pode ser vivida com equilíbrio e espiritualidade, mas não se pense que seja a única energia a reger as relações interpessoais, porque isso seria reduzir a complexíssima teia das estruturas mentais humanas a impulsos simples demais para explicar toda a riquíssima construção da civilização humana, sua cultura, sua filosofia, sua ciência, sua arte e suas possibilidades infinitas de realização, transformação e crescimento.

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
em diálogo com Eugênia-Aspásia (Espírito)
23 de novembro de 2003