No mercado de trabalho hodierno, as relações interpessoais têm caído de qualidade, drasticamente. A competitividade se exacerba, o amor diminui (porque onde há luta pelo poder o amor desaparece) e, por fim, cada vez menos há espaço à espiritualidade, à paz e a todos os experimentos do lado mais nobre do ser humano.
Se considerarmos, então, que, nos grandes conglomerados urbanos, ainda há o problema da desumanização, pela expressão numérica da população, que faz com que ninguém reconheça ninguém e torne a todos meros números, ganhos, perdas ou impedimentos para seus objetivos, então, teremos uma medida aproximada da tragédia que se vive nas metrópoles modernas.
Parece não só axiomático como indiscutível, para esse ambiente de relações brutalizadas, que as pessoas devam agir como animais ferozes em busca de abocanhar nacos maiores de poder, riqueza e prestígio, quão mais selváticas, frias e calculistas, melhor. Todavia, uma nova tendência surge. Paradoxalmente, ladeando as tendências emergentes da competitividade potencializada, novos paradigmas aparecem, nas relações interpessoais, exigidos pelo novo nível de complexidade dos processos criativos atuais. Assim, hoje, para um bom profissional em linhas de ponta do progresso, atingir a excelência, cada vez mais do que nunca, deverá ter uma visão sistêmica (ou holística, para quem preferir o termo da moda), terá que ter uma visão empresarial vanguardista no que tange, por exemplo, à produção ecossustentável, valorizar o humano e o feminino, a intuição, as relações entre colegas, prestadores de serviço contratados, fornecedores, clientes e outros consociados, até chegar a clientes e ao público em geral (que constitui uma massa de clientes em potencial). Se ele não fizer isso, de acordo com o gênero de atividade em que esteja incurso, correrá o risco de ou perder qualidade em sua competitividade (parece quase cínico, mas é um fato nos mercados de trabalho de hoje, sabe-se disso), como, poderá, até mesmo, ser excluído do jogo do mercado. Falei que tal conjunto de eventos acontece de acordo com a natureza da atividade, porque, sem dúvida, em alguns setores de ponta, como o dos serviços, a necessidade, digamos, do atendimento ao cliente ser perfeito é cada vez maior. O desvio do foco da produção para os serviços, de produtos para pessoas, de linhas de montagem para processos, entre outros diversos paradigmas permutados, metodologias de trabalho inteiras revolucionadas fazem com que o mundo do trabalho atualmente pareça outro planeta em comparação ao que existia há apenas vinte anos atrás. A disciplina ficou menos rígida, a hierarquia veio por terra, as relações estão mais livres, a comunicação escorreita, entre os diversos departamentos e níveis das organizações, favorecendo uma maior mobilidade e eficiência em enfrentar desafios emergentes, à medida que surgem, diferentemente das antigas estruturas fossilizadas, gigantes, pouco flexíveis e lentas, pré-programadas para repetir padrões de excelência do passado, ao reverso de estarem abertas aos novos desafios, necessidades e tendências para o futuro.
As empresas, no passado, eram muito voltadas para os sistemas, as filosofias, as metodologias e modelos do passado, em todos os níveis: desde as bases mais elementares de organização da instituição, até suas metas mais ousadas para o amanhã. Não se estava, mesmo nesse particular de definição de metas, ironicamente, aberto ao futuro: esperava-se que o futuro constituísse uma mera continuação de tendências e ocorrências registradas, quantificadas e rigorosamente estudadas no passado. Como se houvesse uma delirante pressuposição que tudo que houvesse para se saber já fosse sabido e que, portanto, ninguém precisasse contar com surpresas. Hoje, a perplexidade, a confusão, a incerteza tornaram-se padrão em diversas atividades avançadas, como a da criação de moda e do universo artístico ou da mídia, e, por outro lado, cada vez mais há necessidade de um respaldo no lado humano das relações sociais.
Há pouco tempo atrás, quando se falava em computadores e sua presença mais intensa na vida humana, faziam-se prognósticos os mais sombrios. “Tempos Modernos”, o clássico de Chaplin de 1936, dava uma ideia do tipo de expectativa que se tinha para esses tempos que estavam por vir: mecanização, morte do sentimento e da criatividade, assassínio da humanidade nas relações de trabalho. De fato, o computador, em grande medida, reduziu o trabalho humano, mas subtraiu distâncias antes impensáveis, acelerou a troca de informações, aproximou pessoas que, de outra forma, nunca teriam como sequer se conhecer, quanto mais trabalharem juntas, e, por fim, propiciou mais tempo livre (ao menos em tese), para que as pessoas pudessem se dedicar aos relacionamentos mais preciosos de sua vida. É bem verdade, que nesse último particular, poucos profissionais transformam a economia de tempo para a realização de seu trabalho em ganho nas relações interpessoais, mas o potencial para tanto subsiste.
Existem, por outro lado, na contraparte desse progresso nas relações humanas, que foram facilitadas, um outro prejuízo, além da acentuação da competitividade: o sentimento de onipotência que as máquinas modernas insuflam nas pessoas. O “deletar” o que se quer, na hora que se quer, do jeito que se quer; o criarem-se universos virtuais ou usufruir deles, ao infinito, sem para isso precisar nem mesmo criá-los, dão uma ilusão de poder às pessoas que não corresponde muito bem à sua realidade, ao menos em seus aspectos mais práticos, elemento esse que gera outra natureza de conflitos, aqueles relacionados às disparidades entre mundo virtual e mundo real.
Estamos, porém, na era da Inteligência Emocional, que antecipa o eclodir da preocupação com outras duas inteligências: a Moral e a Intuicional, não necessariamente nesta ordem, que entabularão diálogos interessantes, complexos e criativos, no futuro, em toda forma vanguardista de relação de trabalho, produção e criação. Hoje, justamente por buscarmos, cada vez mais dramaticamente, excelência, produção com qualidade, rapidez, eficiência, etc, mais necessário, progressivamente, faz-se a utilização dos potenciais plenos retraídos no imo da mente e de seu instrumental neurofisiológico de manifestação física: o cérebro. Portanto, nada mais de buscarmos profissionais rigorosamente técnicos, chefes mal-humorados ou colegas que saibam trabalhar em equipe. Vivemos a era da transcendência e quem não progredir, em todos os sentidos, como ser humano, perderá o bonde da história e da competitividade nos mercados de trabalho.
O paradoxo dos paradoxos começa a acontecer: por razões materiais, a espiritualidade tomará força e rumo em nosso mundo, prenunciando a era em que essas cisões entre o espiritual e o físico, entre o humano e o não humano dissipar-se-ão, para que raie, para a humanidade, uma nova civilização, aquela em que todas as fronteiras serão tênues e todas as coisas serão mais obviamente interligadas, assim demonstrando quão grande, complexa, profunda e surpreendente é a vida.
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Eugênia-Aspásia (Espírito)
11 de dezembro de 2003