Era uma vez uma lagarta muito pequenina, que rastejava horrivelmente pelo chão duro e pedregoso da floresta. Sentia seu corpo repulsivo e disforme, além de, é claro, disfuncional: andava com enorme dificuldade e lentidão. Certo dia, viu uma fagueira centopeia passar por si, e disse consigo, impregnada de desgosto com sua natureza limitada, voltando-se para o Criador:
– Ó, Senhor! Queria tanto ter dois ou quatro pés! Não precisaria ter tanto, como essa riquíssima centopeia, que tem incríveis 100 pés! Andar rastejante é tão humilhante e triste! Por favor, Senhor, atenda a súplica de Sua criatura tão sofrida.
Passou-se um tempo, e a lagarta começou a sentir dores estranhas por todo seu corpinho amorfo, e, dia após dia, viu-se de tal modo doente que um casulo se fez em torno de si e ela passou a curtir dores horrendas, dentro da crisálida, gemendo e agonizando, como se estivesse num estertor sem-fim. Desesperada e angustiada, a lagarta, então, em meio ao seu suplício inominável, orou novamente:
– Ó, Senhor, como estou sendo castigada! Onde está Sua Bondade? Pedi apenas para ter dois ou quatro pés! Fui humilde, não cheguei nem a pedir os cem pés da centopeia, e, em vez de me dar um meio de locomoção melhor, o Senhor me roubou a possibilidade até mesmo de rastejar pela floresta. Agora, eis-me aqui, como um moribundo eterno, morrendo sem morrer, em sofrimento inaudito!
Após essa prece doída e triste, dita com toda verve, do fundo da alma, a lagarta perdeu os sentidos e deitou em seu sono profundo de metamorfose.
Belo dia, quando mais radiante estava a primavera, eis que desperta a pobre lagarta de seu sono de padecimentos atrozes, e, transfundida em esplêndida borboleta, singra os ares, feliz, radiosa, esfuziante de alegria… agora entendendo, por fim, a resposta de seu Criador. Ele não lhe queria dar pés, porque lhe desejava ofertar os ares. Roubou-lhe os movimentos rastejantes, para que lhe pudesse oferecer asas. E, do corpo diminuto e viscoso, fez surgir uma linda borboleta multicolor e rara, para que todos pudessem se encantar ao vê-la voejar…
Talvez, amigo, você seja uma lagarta que chora por apenas rastejar…
Talvez, mais ainda, seja você a lagarta que, após longos anos de humilhação e tristeza, veja-se na prisão indescritível da crisálida das graves crises existenciais…
Mas, se souber esperar e confiar em Deus, fazendo a sua parte, na metamorfose do progresso, esteja certo, prezado amigo, Deus pode não lhe ter dado pés, para que lhe possa conceder asas; e, se hoje é você lagarta viscosa e informe, um dia, fatalmente, será a borboleta do anjo ridente que despontará no futuro, a singrar os Céus dos Altiplanos espirituais, e representar, em si, a grandeza e a beleza da criação, em seu espetáculo singular de cor e graça, nas infinitas possibilidades de crescimento e realização do alvissareiro amanhã…
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Eugênia-Aspásia (Espírito)
1º de novembro de 2003
(*) Em 1999, Eugênia contou-me pela primeira vez, essa linda história sobre a lagarta e a centopeia, que lhe pedi escrevesse por ela mesma para que todos pudessem usufruir de sua linda, confortadora e profunda lição. Curioso que, quando daquela primeira vez ela me começou a narrá-la, porque estava me sentindo muito triste e limitado, disse comigo mesmo: “Quero ver como será possível alguém criar uma história diferente e criativa com esse tema batidíssimo da lagarta que se converte em borboleta.” Ao fim da narrativa, estava pasmo e encantado, com a singeleza e a sabedoria de Eugênia, como sempre nos surpreendendo com sua doçura e profundidade simultâneas. Essa historinha escreveu Eugênia para ser lida também para crianças e adolescentes, o que sugeriria, enfaticamente, que o prezado leitor e leitora fizesse, em casa ou com seus alunos, explicando termos mais raros ou raciocínios mais complexos, se pequeninos. Nada como, através das dores e surpresas desagradáveis da vida, inevitáveis amiúde, aprendermos a esperar e confiar no Criador e em Sua Infinita Bondade.
O fato é que, por fim, mais cedo ou mais tarde…. todos descobrimos que, se fomos ou somos criaturas primitivas, a evolução, inapelavelmente, conduzir-nos-á a fabuloso espetáculo de crescimento e realização… Somos todos anjos-borboleta em gérmen, por mais viscosa e informe seja nossa condição atual de homens-lagarta.
(Nota do Médium)