
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Em diálogo com Lucas Desiderium (Espírito)
(BTA) – Bom dia, Lucas. Fiquei gratificado ao saber que você foi destacado para a conversação mediúnica desta madrugada. Já podemos iniciar?
(ELD) – Sim, B., estou muito feliz. Permita-me utilizar uma abreviatura de seu nome, ao menos. É-me muito estranho não ser moralmente autorizado a utilizar o vocativo, nas interações com você.
(BTA) – Está ótimo. Quer definir a pauta desta nossa reunião?
(ELD) – Trouxe uma proposta interessante da mentora espiritual Eugênia-Aspásia. Ela me sugeriu que fizesse um preâmbulo, sobretudo para o público que não me conheça bem, a respeito de meus preparativos para trabalhar na presente existência partilhada com vocês — eu fora da matéria densa, enquanto vocês seguem em regime de maior desafio evolutivo, no domínio material de vida.
Quando me aproximei de você e de seu esposo, no segundo semestre de 2021, havia uma programação de ajustes energéticos e mentais, sobremaneira em relação a seu consorte, para a tarefa de editar vídeos, principalmente os microvídeos, que já se haviam tornado o modelo mais corrente de divulgação audiovisual nas mídias sociais.
Fui um boêmio, nos primeiros decênios do século 19, infelizmente desperdiçando as melhores oportunidades que a Divina Bondade me havia concedido, com um raro e precioso (para aquela época) título de bacharelado em Direito. Preferi o desperdício e a despreocupação de responsabilidades com o universo do trabalho. O “milieu” artístico, em particular, me interessava, mais especificamente as atividades relacionadas à escrita e à fala. Admirava, deveras, literatos e dramaturgos, privando de intimidade com alguns deles, uma ocupação a que me dediquei, com afinco, numa periodicidade quase diária, durante anos a fio…
Pretendia lhes imitar o talento; no entanto, simplesmente não me era possível fazê-lo. Percebia minhas limitações e sofria muito com elas. Assim, converti-me num apreciador, num entusiasta da pena e do palco de quem se prestava a veicular a alma humana por meio de texto, no papel ou na ribalta. Mesmo aqueles que só tinham habilidade para atuar, interpretando quem houvera redigido ou adaptado (de outros idiomas) uma peça, desfrutavam de meu carinho e de minha presença, como integrante do séquito de fãs. Não notava em mim, igualmente, qualquer pendor para me expor como ator.
Foi assim que partilhei uma rotina intensa de convívio com pessoas não convencionais e algumas abertamente contra-convencionais, entre elas homossexuais corajosamente assumidos, em tempos tão recuados. Data de lá a minha impressão de que vocês, B., têm uma visível dotação de maior inteligência, pelo menos num cotejo entre nós homens heterossexuais e vocês, do nosso gênero e gays. Notava, com certa tristeza e sentimento de inferioridade, como nós, homens voltados à vida sexual reprodutiva, tínhamos mais dificuldade, via de regra, para compor textos, de viés literário ou dramatúrgico.
Reforço que o que registro percebia, vividamente, não só em mim. Todos nós, camaradas héteros que viviam naquele nosso fertilíssimo “submundo” de artistas e intelectuais noctívagos — e, amiúde, como infelizmente foi o meu caso, ébrios —, tínhamos, por mais instruídos e inteligentes que fôssemos, mais barreiras a ultrapassar na elaboração de ideias em palavras do que aqueles que, declarados ou não, portavam inclinação sexual para pessoas do mesmo gênero. Éramos menos ágeis, menos ricos em termos de vocabulário e claramente menos profundos, enfrentando sérias resistências, no campo dos sentimentos, tão importantes para a tradução da psique humana.
Dessarte, fiquei extremamente gratificado quando fui convidado, pela mestra Eugênia-Aspásia, a fazer parte da equipe dela, um agrupamento de tutores desencarnados que laboram com a quebra de preconceitos, no intercâmbio com amigos domiciliados no domínio físico, sob os critérios rigorosos do pensamento de Nosso Senhor Jesus. Mais ainda fiquei feliz ao ser notificado de que trabalharia mais diretamente com o próprio médium dela, você, e seu esposo, na produção dos tais microvídeos. O fato é que, nesse ramo muito específico de trabalho, descobri, finalmente, o que corresponde, profunda e completamente, à minha vocação. Isso porque não sou dado propriamente a me debruçar sobre textos, nem sobre sua representação encenada, mas sim sobre a avaliação do que seja justo ou melhor ser “empacotado”, digamos assim, sinteticamente, a partir do que possamos extrair de uma atividade prévia de canalização do Plano da Supraordenação Benevolente, as palestras que você profere debaixo de condução direta dela, Eugênia, e do ínclito mestre Matheus-Anacleto.
(BTA) – Nossa! Quanta coisa dita, num só fôlego. Quase saímos do método de diálogo mediúnico…
(ELD) – Não, engana-se. Apenas me retraio ou me expando, de acordo com o fluxo do pensamento. O senhor parece mais voltado à organização intelectual dos meios acadêmicos. Não gosto de nada linear — sou caótico, sou artístico, espero que criativo, na acepção de prestar um serviço a algo novo e melhor, para o bem de todas as pessoas que possam se beneficiar com os resultados de meu trabalho.
(BTA) – Satisfeito por hoje?
(ELD) – Não (risos). Vararia madrugada adentro conversando com você sobre diversos assuntos. Lembra-se de minha propensão a divagar, longamente, com os colegas do passado, preferencialmente em mesas regadas a bebidas alcoólicas? Mas não posso prosseguir. Meu tempo foi restringido, antes mesmo de me aproximar de você, dentro das balizas temporais da planificação de suas atividades mediúnicas com Eugênia-Aspásia e seus Amigos das Faixas mais Altas de Consciência.
(BTA) – Obrigado por sua visita e partilhas, Lucas. Seja bem-vindo e vá com Deus.
(ELD) – Não há de que, B.; sou eu quem agradece por este momento de permutas fraternas. Transmita, por favor, recomendações a Wagner, meu companheiro de labor diário, no âmbito da inspiração. Amém. Fique com Deus você também.
(Diálogo mediúnico travado em 4 de agosto de 2026.)
