Benjamin Teixeira de Aguiar
Pelo Espírito Gustavo Henrique

(Os nomes e eventos da história narrada a seguir foram modificados para preservar a privacidade de alguns personagens ainda encarnados.)

Ao final da década de 1960, o professor Gerard foi procurado pessoalmente pela gloriosa Sophia, sua mãe espiritual eterna, que desceu de altiplanos da Espiritualidade Sublime até o Instituto Voltaire, fundado e presidido por ele, desde os idos de 1925, e que se situava, vibratoriamente, nas cercanias da faixa mental dos encarnados no orbe, para prestação de serviços de vulto a sofredores de todas as “estirpes”, dentro ou fora da matéria densa.

– Meu filho – disse ela, sem rodeios -, aproveitaremos sua descida ao domínio material de existência, para ajudar no reajuste da rota existencial de algumas almas que estarão reencarnadas, na mesma época que você, e que sofrerão, em virtude de posições de prestígio, poder, fortuna e/ou celebridade, a tentação de se afastarem da melhor fidelidade ao ideal do bem comum – uma sintonia sempre custosa a se manter, quando um indivíduo se encontra encarnado, em condição de destaque perante a multidão.

O professor, agradecido pela atenção de sua Mestra Espiritual (mais do que apenas mãe), respondeu:

– Já estou informado disso e seria mesmo deduzível que tal experiência ocorreria, em considerando meu perfil psicológico. Todavia, é essa questão mesmo que me preocupa. Como vão me permitir estar encarnado para falar em seu nome e em Nome de toda a plêiade de nobres espíritos que você representa, com essa atitude de enfrentamento de pessoas e instituições, nos pináculos do destaque no mundo? Porque é assim que pessoas viciadas em comportamento adulatório se portarão: como se houvessem sido atacadas. Quando as tratar com amabilidade e lhes fizer justas referências elogiosas, estarão satisfeitas, mas assim que passar à outra devida face de minha função de orientador espiritual: apontar-lhes as faltas a serem corrigidas, voltar-se-ão não só contra mim, mas contra a Obra que estarei desdobrando em seu e no Nome de Seus Amigos.

O anjo Sophia replicou, redobrando a atitude respeitosa:

– Eis uma das razões de minha vinda até aqui, hoje. Comunicar-lhe que haverá uma cobertura extraordinária de fenômenos de origem Divina ao seu trabalho, que atestarão, para quem não esteja enceguecido pela soberba, ser você representante legitimamente endossado da Espiritualidade Sublime, dos guias de quem vier a ouvi-lo e de coletividades inteiras. Também providenciamos, para falar brevemente com você, neste nosso encontro, como exemplo emblemático dessa comunidade de resgatados eventuais, Felipe de Bourbon.

– Ele está reencarnado. Virá em deslocamento parcial do corpo? – indagou Gerard.

– Sim. Ele não se encontra ainda em posição de grande evidência; mas estará em relevante posto de poder em Brasília, quando você lá estiver por sua adultidade.

Gerard prosseguiu em suas análises.

– Não faço ideia de como ele poderá me ouvir. Tem caído no elitismo contumaz, de um modo sempre superior às determinações de cada cultura e época em que tem reencarnado.

Sophia não se fez de rogada e respondeu prontamente:

– Desfrutará de livre-arbítrio para ouvi-lo ou não. Mas receberá seu socorro, como o inspiraremos a isso, se você também se dispuser a nos acolher as sugestões.

A essa altura do diálogo, os dois interlocutores foram interrompidos pelo aviso de que, acompanhado de uma comitiva de dois espíritos benfeitores, o encarnado, em parcial afastamento do casulo de matéria densa, chegara.

– Felipe? – antecipou-se o discípulo de Sophia, enquanto esta permanecia oculta, inalcançável às percepções do encarnado.

– Ó, professor Gerard! Que alegria em revê-lo! Como é bom termos esses momentos breves de lucidez fora do corpo físico, apesar de não nos lembrarmos de quase nada, quando por lá retornamos a trabalhar…

– Também muito me agrada revê-lo – reagiu, com simplicidade honesta, o professor de multidões – sei que já está há mais de vinte anos atrelado à superfície da Terra.

– Pois é. Infelizmente, ainda muito jovem, demorarei bastante a retornar para cá.

Gerard contemporizou, de inopino:

– No entanto, invariavelmente é uma grande bênção estarmos em regímen de teste e serviço ao bem comum, na faixa espiritual das realizações mais difíceis que as reencarnações constituem, para nossa própria evolução e das comunidades em que estivermos inseridos.

– Não me fale, professor. Sei que deve ter notícia da grande provação que sofrerei, nos tardios anos de minha existência, quando estiver próximo a me aposentar.

– Sim, soube. É sobre isso mesmo que gostaria de falar com você.

O encarnado fez expressão óbvia de surpresa e interesse, ao passo que o professor desencarnado, jungido mentalmente a Sophia, prosseguiu:

– Estou na iminência de reencarnar e terei oportunidade de, ainda que de modo um tanto indireto, conviver com você, em pelo menos dois períodos, nos anos finais deste século e nos primeiros do próximo.

– Não me diga! Isso, sim, é uma bênção! Nem me incomodo que me procure mais jovem no aparelho material de vida. Creio que a condição de reencarnado não o deterá de me auxiliar em meu ministério no campo da Justiça, o senhor que é discípulo direto da grande Sophia (citou a Mestra grega, sem ter a menor ideia da presença dela junto a ambos).

– Sem dúvida que não faltarei com a verdade e sempre oferecerei a você a minha amizade sincera, não obstante saiba que não é fácil afastar-se das ilusões do próprio ego, quando estamos cercados de adulações no mundo terreno, não é?

– Deus me livre de queda tão horrível, professor! Imagine não acatar suas instruções, quando mais estarei necessitado delas, justamente por saber que o senhor, quando encarnado, destoará de todas as outras vozes e me falará com franqueza e firmeza, se necessário…

– Que bom, Felipe, que assim seja. Agradeço pela confiança que deposita em mim. Confiemos todos na Divina Misericórdia, para nos clarear as consciências, em momentos mais agudos de testemunho pelo bem. Vá, siga em paz. Seus amigos espirituais levá-lo-ão de volta ao maquinário biológico. Em tempo, tornaremos a nos encontrar.

Anos se passaram. O professor Gerard, com outro nome e um novo corpo, encontrou-se, de fato, com Felipe, já convertido em autoridade do Direito, que muito o elogiou a respeito de publicações de livros e de suas exposições semanais na TV, na última década do século XX, quando Gerard transitava na casa de vinte anos, no veículo de matéria densa. Gerard, acanhado, agradeceu as referências encomiásticas e seguiu, com forte intuição de que, de futuro, tornariam a se encontrar, para “acertos de contas”. E aconteceu. No início da década de 2010, quando se aproximava de realizar evento fora do Brasil, a luminosa alma de Sophia aproximou-se de Gerard-encarnado e disse-lhe, à acústica mediúnica:

– Filho amado, gostaria de lhe solicitar a participação, em nosso evento, de Felipe (vamos assim continuar a denominá-lo).

–Gerard ouviu incrédulo.

– Cara mestra, sei que não me proporia algo impróprio. Todavia, entendo que posso estar sendo submetido a teste no campo do pensar correto. Devo dizer “não” à sua sugestão, seguindo orientações de meu bom senso, que diz que a criatura indicada por você não tem condições de compreender o relevo do que estamos fazendo?

– Sem espaço a dúvidas, você pode responder negativamente à minha proposta. Entretanto, estamos concedendo uma oportunidade especial de serviço ao Ideal de despertar da espiritualidade no planeta a alguém que foi chamado a nos auxiliar, que reencarnou com o compromisso de favorecer a divulgação de nossa Causa e que nada fez até agora. Essa será a última janela de oportunidade de ele o fazer, ainda que modicamente, entrado como está na terceira idade, e após haver-se aposentado, no alto posto a que o guindamos na sociedade terrena.

– Compreendo. Quero atendê-la. Mas ele vai declinar do convite, prezada Sophia. Essa é minha leitura, com muita clareza. Devo submetê-lo a assumir esse terrível débito cármico, de “bater a porta na cara” de um Chamado que provém de você e de Quem você representa? Já vi, em circunstâncias similares, pessoas assumirem deploráveis sinas cármicas, já manifestas em poucos anos, aqui mesmo, enquanto estamos encarnados.

– Você tem razão em dizer que não será fácil para ele, em sua soberba cristalizada nas vestes da falsa modéstia, dizer um “sim” à proposta que lhe fará. Pressuporá que você quer usá-lo para promoção pessoal, incapaz de enxergar que você vive sinceramente para o bem comum, que, como ele mesmo deve saber, claramente deu as costas ao exato universo de prestígio no Direito a que ele se vinculou, com a volúpia de um ego voraz. Por isso mesmo, antecipo-lhe que você está autorizado a lhe dizer, em caráter de socorro misericordioso, como segunda etapa do convite, que a ele bastará que nos grave em vídeo alguns breves apontamentos de carinho e respeito sobre nosso projeto, para exibirmos no evento. Ele dirá “não” à primeira proposta. Mas ao convite de falar, sumária e modicamente, algumas palavras, cremos que há alguma probabilidade de que não tergiverse.

– Então, chegou a hora da provação para ele, não é?

E, profética, corroborou Sophia:

– Sim, desse teste final ele não poderá se evadir, não importando como, de fato, venha a responder à prova muito simples de desapego às paixões de vã vaidade, inveja e orgulho a que se entregou, com despudor, ainda que elegantemente se esconda, para o mundo, nas vestes de “cordeiro” aparentemente humilde. É inequívoco, apesar de nossa contemporização, que será tentado a se julgar superior à Causa dos Cristos de Deus a Quem servimos.

O professor Gerard considerou a possibilidade de acerto da figura do Poder Judiciário residente em Brasília. Orou, muniu-se de forças, para, na sua franqueza, não ser levado a dizer o que não gostaria, e contatou o antigo aluno.

Num primeiro momento, Felipe foi extremamente cortês, na ligação em tempo real. E, como Gerard esperava, disse “não” à primeira etapa do convite. Apesar de ser evento indiretamente relacionado às Nações Unidas, mesmo assim o ex-aluno se recusou a participar. Chegou a vez da segunda etapa do convite. E Felipe, com tom enfastiado na voz, aceitou receber uma equipe de gravação em vídeo, que viajaria à capital da República, a fim de registrar a fala da “estrela” do Direito. Gerard agradeceu a Deus pelo aparente resultado positivo da experiência melindrosa.

Dias se passaram e qual não foi a surpresa de Gerard, quando foi interrompido pelo chefe da equipe audiovisual enviada a Brasília, que informou que, depois que todos os equipamentos estavam montados há horas, esperando uma autoridade já aposentada que alegou muitas ocupações, apareceu um então Felipe, dizendo-se impossibilitado de gravar seu parecer, porque isso constituiria “tráfico de influência”. Adicionou a este ataque acintoso à dignidade da Obra de Sophia sobre a Terra, a afirmação de que não poderia gravar, porque fora detido, disse, de modo blasfemo, por uma “imperiosa intuição moral”. E encerrou completando que, para falar qualquer coisa em evento relacionado à ONU, teria que ser convidado (mesmo aposentado, reiteramos), por canais oficiais e políticos da cúpula da célebre organização internacional.

Gerard sentiu o “sangue gelar nas veias”. O estupor de presenciar, mais uma vez, a ocorrência de um “pecado sem perdão”: de alguém declarar que outrem, movido por um “Espírito Santo de Deus”, estaria movido de maus propósitos (Terceiro capítulo do Evangelho de Marcos). Pediu para passar o telefone ao próprio Felipe. Repreendeu-o, laconicamente, e desligou o telefone, sem se despedir. Tornou a ligar para sua equipe e determinou que voltassem, imediatamente, à cidade de origem, sem receber qualquer ajuda financeira à viagem aérea do blasfemo infeliz. “Dito e certo”. Felipe tomou um susto com a atitude de seu antigo professor e quis custear todas as despesas da equipe, impressionando-se mais ainda com a negativa categórica que fora determinada por Gerard.

O “figurão” do Direito ficou, a dizer por baixo, estupefato com a vivência insólita, ao não só Gerard repreendê-lo, como em desligar sem se despedir, nem aceitar qualquer compensação material… Isso não acontecia jamais com ele. Ninguém, mesmo decente e aborrecido, jamais o “afrontaria” daquele modo, em sua grande e gloriosa posição. Nem mesmo colegas de sua distinta classe, que costumavam se tratar com uma pomposa deferência recíproca. Começou a andar em círculos, atordoado, diante da própria equipe de captação de vídeo, sem conseguir deter a perplexidade casada a uma, agora sim, imperiosa intuição moral de que havia cometido um grave erro.

Gerard, comunicado de que Felipe jazia aturdido, apiedou-se, e resolveu dar uma última chance ao antigo aluno, com idade no corpo de ser seu pai biológico. E começou a interagir com ele, por texto, à distância, noite adentro, madrugada adentro…

Para emoldurar de horror a sua bancarrota moral, o “vulto” do Direito desastrosamente prosseguiu rebatendo, com sofismas mal dissimulados, cada argumentação sobre a queda infeliz a que se entregara, reforçando o próprio erro, em lugar de se sentir bafejado com o ensejo de pedir perdão e retroceder no ato infortunado de regatear o convite de se pôr a serviço de uma Causa Espiritual séria, como tudo que genuinamente é oriundo do Plano Crístico de consciência.

Na manhã do dia seguinte, correu em busca de outro médium, que, fez questão de dizer a Gerard, ainda lhe enviando mensagens de texto, ter mais de 70 anos de idade, a fim de confrontar o porta-voz de Sophia. O médium encanecido no corpo (como se idade do corpo dissesse alguma coisa sobre maturidade do espírito) teria afirmado que ele estava cumprindo bem a Vontade de Deus para ele.

A esse movimento final da figura do Direito, Gerard se impressionou significativamente. O que Felipe pretendia, naquela discussão interminável? Já tinha antecipado ao próprio Felipe que ele estava acostumado a vozes universalmente adulatórias, em particular no meio religioso, debaixo das vestes da aparente “bonomia humilde”, muito longe de um Jesus revirando as bancas do templo, e que nenhuma delas poderia ser representante autêntica da Voz de Deus. Felipe deixava escapar, nas entrelinhas do que emitia por escrito, estar visivelmente atormentado. Percebia que não tinha como negar que ninguém nunca o havia enfrentado daquela forma.

Foi então que Gerard, dando-se conta do pano de fundo de confusão e conflitos a que se houvera confiado Felipe, digitou a última mensagem à personalidade aposentada da função pública, percebendo que o ex-aluno afligia-se em obter um parecer final seu, algo que o desculpasse, em sua própria opinião:

– Tranquilize-se, Felipe. Ainda o vejo como pessoa de bem. Apenas esperava que você fosse uma pessoa mais idealista do que é.

Felipe, para última e amarga surpresa de Gerard, ensaiou um sorriso de vitória, do outro lado da linha de internet, e respondeu, desdenhoso:

– Boa viagem aos “Estates”.

Poucas semanas depois dessa interação intensa, que aqui sumariamos, quando Gerard e um grupo de amigos ainda se encontravam nos Estados Unidos, estourou um escândalo, no estado natal de Felipe, com um sobrinho portador de nome exato ao dele. O nome emoldurado de brilho convencional, pelo qual tanto zelava a “autoridade” que era “unanimidade” entre conterrâneos, fora lançado na lama do escrutínio público.

Acossado pela vergonha e sem saber como reagir, Felipe começou a não utilizar a parte do prenome pelo qual mais era conhecido e lançou mão de seu segundo nome próprio (ostenta nome composto), tentando, em vão, despistar-se do vexame. Não sabe ele, entretanto, que o “incidente” infortunado com o sobrinho constituiu um pálido reflexo do que terá que sofrer, em virtude da imensa dívida moral que contraiu perante o Governo Espiritual da Terra…

(*) O título deste artigo tem sentido duplo e propositalmente não está registrado na narração que aqui publicamos. Foi lançado como acusação, em direção duma pessoa, em verdade devendo ser refletido, em profundidade, em sentido autocrítico, por quem apelou para o conceito implicado na célebre expressão popular.
Nota do Autor Espiritual.

(Psicografia recebida em 26 de junho de 2026.)