Ouço agora “Ladies of the Chorus”, do clássico homônimo hollywoodiano de 1949, tendo Marilyn Monroe, em seu filme de estreia, como uma das vozes jovens femininas a cantarem docemente as maravilhas da vida… Tinha ela 23 anos então…
Onde estão ela e suas companheiras do “Chorus”? Passei há pouco, em trânsito para um compromisso de trabalho, à porta de gigantesco cemitério, na “nova-iorquina” São Paulo, e, por detrás dos muros pouco altos, mausoléus suntuosos apontavam para o céu… Estátuas mortas, pedras frias, com despojos carnais escondidos, feitos pó. Mocinhas encantadoras da mesma época da gravação que ouço jazem lá… Há 54 anos atrás eram beldades sensuais, cheias de vida, de sonhos, de esperanças… Entre as vozes que escuto, certamente muitas sonharam com o estrelato no cinema, como Merilyn. A grande diva realizou seu sonho… mas… e daí? Onde está ela agora? Morta há mais de 41 anos… Feita pó, como toda a multidão de jovens da época…
Minha avó materna, se estivesse viva, completaria hoje 89 anos. Desencarnou em 1999, aos 84 de idade. Morreu usando ainda o mesmo penteado que usou na juventude, no início dos anos 30, pouco antes de se casar. Cantava como as grandes estrelas da época, quando ao piano, com seu fio de voz trêmula, reproduzia antigas valsinhas de tempos idos, que ninguém mais conhecia… Dizem ter sido umas das mais, se não a mais linda moça da proviciana Aracaju da época da Revolução de 30. Vovó tinha lindos olhos azuis, que pareciam faróis de tão cintilantes, e, com pele descorada e cheia de vincos e imperfeições que o tempo lhe dera, lembrava-se, com lágrimas nos olhos, do tempo em que fora também linda, jovem e encantadora… Dizia que suas pernas eram as mais belas já vistas por qualquer um, “cantadas em prosa e verso”, e, ao fazê-lo, levantava a barra da saia à altura dos joelhos para mostrar as pernas deformadas pela superobesidade somada a lacerante e deprimente erisipela, que lhe deixava os tecidos em carne viva, e acrescentava, em seguida: “Olhe como são hoje as minhas pernas!…” Tinha todos os ares de uma diva decadente do cinema, a viver os louros de um longínquo passado que teimava fazer-se história, deixando saudades aterradoras… Vovó adorava Merilyn Monroe, e, pelo que intuo… tinha a famosa loura ianque, como um modelo da mulher esfuziante de vida e fascínio que ela sentia ser também, sob o sol abrasador de terras tupiniquins… Era 12 anos mais velha que Merilyn e sobreviveu em 37 à maior estrela de todos os tempos… Mas… mesmo assim, parecendo ter tanta sorte… vovó não só perdeu os encantos da beleza física… vovó morreu…
Se não formos algo além da matéria, já não somos nada agora mesmo… Pedaços de carne viva, dependurados sobre cabides de ossos, esperando o momento de apodrecer… e virar pó… e nada…
Ó místicas musas do passado… Vocês eram tão lindas, tão jovens, tão prenhes de vida… onde estão vocês???…
Ó divas do passado… e de sempre… acordem aqueles que supõem que pode haver algo sem o espírito… Mostrem que até vocês se foram… e que, se não formos espíritos… vocês e todos nós… não passamos de macabras assombrações… rebotalhos de existência… tragédias ambulantes, aguardando a precipitação no abismo… Ajudem-nos a acreditar que suas vozes maviosas não sejam gritos sinistros de desespero, mascarados na alegria que representam em seu canto… e sim o prelúdio da eternidade, que a todos nos aguarda… além-túmulo!!!…
Benjamin Teixeira de Aguiar
3 de dezembro de 2003
(*1) Por me incumbirem de outra atividade mediúnica, os espíritos me pediram que cancelasse a publicação, neste site, de mensagens nos fins de semana e feriados. A patir de agora, assim, retornamos ao sistema de atualização de artigos apenas nos dias úteis da semana.
(*2) Este pequeno artigo revela mais de minha alma do que pode parecer à primeira vista. Foi essa natureza de reflexões que me fez, na adolescência, apaixonar-me por filmes antigos e reverenciar a beleza de divas mortas, como Marlene Dietrich e Greta Garbo (deidades cinematográficas da supracitada década de 30 do século passado)… Onde estariam elas? A vida só faria sentido se algo houvesse além desse teatro trágico de morte e vazio. Tornei-me um estudioso do assunto, e descobri que a tragédia era glória mascarada de desilusões…
(Notas do Autor)