Benjamin Teixeira de Aguiar – Eugênia, o que dizer quando médiuns igualmente sérios, ao revelarem a opinião da Espiritualidade Superior, sobre temas melindrosos, de ordem moral, digamos, contradizem-se ou ao menos parecem se contradizer?

Espírito Eugênia-Aspásia – O problema, neste caso, não é da Espiritualidade Superior, mas dos médiuns. O fenômeno mediúnico é extremamente complexo, e está sujeito à cor mental da mente intermediária, além de também existirem indefectíveis códigos de ética na comunicação psíquica, que fazem com que os denominados espíritos-guias contornem os preconceitos dos médiuns, sem confrontá-los diretamente, o que seria violação de seu livre-arbítrio, em área sacratíssima como a moral. Assim, a questão está em o medianeiro manter-se informado, atualizado e aberto aos ventos da evolução, ou rapidamente faz-se um vetor reacionário da religião, como aconteceu ao tempo de Jesus, em que o Mestre foi visto como herético e diabólico, por contrariar os preconceitos e convenções de seu tempo. As maiores autoridades religiosas do tempo do Cristo estavam contra Ele, por perceberem, em sua pessoa, uma ameaça a seu “status quo”.

BTA – Incrível como quem se opõe, com veemência, à verdade está, via de regra, bem inconsciente de seu quase-delírio, não é? Isso só pode trazer amargas consequências para quem assume tal postura, não?

EEA – Há uma tendência de quem está representando a veia dominante da cultura de um tempo a julgar-se proprietário da verdade, por encontrar facilmente apoio em seus coevos, o que constitui um tétrico ciclo vicioso de destruição recíproca, que os leva mais fortemente a abominar quem contrarie sua forma de enxergar o mundo. Como disse Jesus: “cegos são, e condutores de cegos”, e, por fim, acrescentou: “e juntos se precipitarão no abismo”. Todos sabemos como estavam equivocados os que condenaram o Mestre – só não se conhece o preço que tiveram que pagar, por sua visão estreita, em diversas existências provacionais, pelo carma incomensurável de se anteporem ao Projeto Espiritual mais importante na história do planeta, liderado por seu próprio “governador” (*2). Jesus perdoava prostitutas e chegava a dizer que “estavam perdoadas, pelo muito que amavam”, convivia com mulheres e as incluía em seu círculo de discípulas, chamava a Deus de Pai e dizia que os templos de pedra eram dispensáveis. Tudo isso era tido como escandaloso em seu tempo, principalmente por ferir frontalmente, os quase-sempre cristalizados preconceitos sexuais. Hoje, todavia, sabemos o quão estava Ele certo.

BTA – Parece, todavia, que quando se trata de apresentar uma ideia nova, quanto mais se apresentam razões que a fundamentem, mais as pessoas que não a admitem se exasperam. A que se deve isso?

EEA – Algumas, por uma questão de ego – não querem “dar o braço a torcer”, como se fala no vernáculo, e, assim, quanto mais se prova a “inferioridade” de suas ideias, mais elas lutam para provar que elas mesmas não são “inferiores”, porque envolvem o pessoal na questão em foco, e acreditam que estão sendo diretamente atacadas e não suas ideias. Ou seja: um reflexo de imaturidade psicológica. Outras porque inconfessáveis interesses estão em jogo. Um líder mais velho, embora não pretenda confessar (muitas vezes nem a si próprio), pode se sentir ameaçado por um jovem que apresente lucidez ou conceitos mais abertos, e, por receio de “perder território”, faz de tudo para “tirar de cena” o empecilho para suas intenções ocultas de predomínio. Esta é uma questão fronteiriça entre o emocional e o moral. E, por fim, existe simplesmente o famoso e universal medo da mudança, que faz com que muitos ateiem fogo a escolas, bibliotecas e homens de Ciência, como no passado se fez literalmente, e hoje se continua a fazer, metaforicamente, como os intentos de impedir que alguém fale ou surripiar-lhe o crédito para falar, já que não se pode contradizer o que fala. Neste último caso, uma questão de falha grave na moralidade. A verdade, porém, é como um sol a esbater as trevas da noite: invencível… Cedo ou tarde, vence; para vexame dos maus perdedores, o que, pela velocidade atual das mudanças, quase sempre essa vitória acontece muito rapidamente.

BTA – Eugênia, há pessoas que copiam os maneirismos de outra, de modo quase patológico – o que podemos compreender dessas pessoas? O que as leva a agir assim?

EEA – Não é “quase-patológico”: é severamente patológico. Em se tratando de crianças pequenas, que imitam naturalmente seus pais, professores ou responsáveis, constitui fenômeno compreensível e natural. Mas quando se descobre tal ocorrência entre adultos, vê-se então assinalada grave doença da alma, que indica um ego mal-constituído, preocupado em “roubar” o valor do outro, já que se sente sem valor. A atitude saudável, madura e ética está em se mirar no outro, assim incentivando-se para desenvolver o próprio valor e não em simular o valor alheio. Há casos graves, nesses delírios semi-psicóticos, em que o indivíduo sente tamanho desejo de “ser o outro” que começam a surgir fantasias e mesmo desejos de morte do “rival-adorado”, para que o seu “ser” fique apenas para quem copia. A filmografia recente tem apresentado histórias mórbidas em que homens ou mulheres começam a imitar amigos, até que tramam seu assassinato e o praticam, para que possam assumir completamente o lugar do “invejado-idolatrado”.

BTA – Creio que muita gente que lê essa sua resposta pode ficar deveras impressionada, e ter receio de se enquadrar nesse caso de quase-loucura e quase-tendência-criminosa. Poderia deixar mais claro o a que alude?

EEA – Sim. Amigos, familiares, cônjuges, companheiros de ideal naturalmente assumem, até certa medida, alguns traços linguísticos, conceituais e comportamentais uns dos outros. Não fazemos alusão a essas ocorrências, perfeitamente naturais, mas aos casos de nítido e deliberado desejo de parecer-se com outra pessoa. São normalmente almas atormentadas, profundamente inseguras e, em alguns casos, com sérios traços de mau-caráter, podendo, como dissemos acima, apresentar tendências criminógenas.

BTA – Existe uma certa religião neopentecostal, em que seus pastores copiam, visivelmente, a forma de falar, entonação vocal e mesmo a gesticulação do seu fundador. O que poderia dizer sobre isso?

EEA – Não só o que falamos há pouco, como ainda incluiríamos a intenção de ser validado pelo “parecer com o chefe”. Isso, em tese, é desonesto. Todavia, em alguns casos, pode apenas revelar personalidades extremamente frágeis e imaturas, a ponto de precisarem absorver os aspectos externos, de aparência, de outra personalidade, por saber que a essência do admirado é inalcançável, quanto a de si mesmo vê como imprestável.

BTA – Podemos deduzir disso, então, que essas pessoas não têm maturidade ou condições emocionais e espirituais para conduzir almas?

EEA – Sim, isso é bem claro. São pessoas que precisam ser tratadas. Não possuem, assim, o menor estofo para se colocarem como guias em questões tão complexas, delicadas, profundas e abrangentes como as do espírito. Estes psicotipos nunca se tornam líderes genuínos – vivem à sombra da imagem que plagiam (curioso notar que o plágio é cominado como crime em diversas legislações do mundo, incluindo a brasileira), e, assim, nada criam de original e importante, já que eles mesmos perderam o contato com sua natureza e com o valor singular que lhes é personalíssimo. Precisam se conhecer, descobrir seus valores. Precisam, mui grave e inadiavelmente, de tratamento psicoterápico e orientação espiritual do melhor nível, para que quebrem a concha protetora, a redoma de ilusões que criaram em torno de seu ego frágil.

BTA – Quer com isso dizer que elas são resistentes a perceber a gravidade de seu problema?

EEA – Sim, muito. Seria desesperador para elas perceberem quão frágeis e inconsistentes são. Assim, se alguém lhes leva a ouvir algo do gênero a seu respeito, sua reação costuma ser explosiva, veemente e irracional, variando de acordo com a personalidade e a educação do indivíduo. Só não terá essa reação violenta o criminoso cínico, que, então, por fazer a simulação da figura-modelo, muito fria e conscientemente, apenas tratará de silenciar, com os meios ao seu alcance, a fonte d’onde promana a revelação, ou, se não a julgar perigosa a seus interesses, simplesmente não lhe dará mais ouvidos, a partir do instante em que nota sua percepção lúcida.

BTA – Nossa… Eugênia… que controverso…

EEA – Não: isso é muito óbvio, para pessoas relativamente instruídas, principalmente em matéria de Psicologia, e truístico – embora intraduzível em palavras – para toda pessoa perspicaz e de bom senso que observa alguém com esse tipo de conduta. Quando conhecem o “original copiado”, percebem que se tratam de imitações grosseiras, e imediatamente se põem em guarda, por pressentirem que alguma intenção inconfessável oculta-se por detrás do plágio óbvio. É importante que se diga isso, para que os indivíduos não se impressionem com as aparências, mas procurem a essência do que se diz e de quem diz. Muitas vezes, as maneiras estudadas e polidas de alguém podem impressionar a plateia. Mas, para um olhar mais inteligente e treinado, não passam de simulacros perigosos da verdadeira virtude. Toda forma exageradamente formal de agir já pode muito bem ser digna de uma certa dose de cautela, senão de desconfiança. Porque, mesmo naqueles em que há sinceridade, o exagerado formalismo indica artificialismo, com dois problemas: (1) perda de conexão com a própria natureza (e portanto de seu centro espiritual mais profundo), com o desaparecimento da espontaneidade e, principalmente: (2) o excesso de importância que se reputa a si, expresso nos gestos e reações por demais calculados para impressionar, o que, como é evidente, é extremamente perigoso, mormente em assunto de espiritualidade, porque o indivíduo estará sempre mais focado nos interesses de seu ego e menos nos interesses do transpessoal e do coletivo, em torno dos quais sua alma e suas escolhas deveriam gravitar, prioritariamente, pela ordem de atividade a que se dedica.

BTA – Palavras duras, Eugênia.

EEA – Não tanto quanto é grave alguém simular defender interesses espirituais, para dar vazão a seus interesses pessoais. Alguém, por exemplo, pode fazer da religião um meio de sobrevivência e de progresso material, por não encontrar, à sua disposição, outras alternativas para ascender na escala social. Dedica-se, assim, à atividade espiritual não por vocação, mas por supor que não é apto a atingir tais propósitos por outros caminhos. Isto é hipócrita e seriíssimo em suas consequências na vida de outras pessoas, pela inaptidão deste indivíduo à liderança, em área tão complexa e delicada como a espiritual. Um garoto de periferia, por exemplo, por não ter ou achar que não tem outra forma de “subir na vida”, pode concluir que, entrando para a igreja, católica ou evangélica, tornar-se-á alguém importante, adquirindo prestígio e status. Isso é uma fraude, em outras palavras. Para se devotar à atividade religiosa, a pessoa deve demonstrar profundo pendor para tanto, uma vocação do mais fundo da alma, ou será um desastre para a espiritualidade dele e de muitos. Alguém, como outro exemplo, pode se dedicar à religião porque, sendo obrigado a ocupar-se, por premências da vida, a serviços que considera subalternos durante o dia, deseja fazer uso da sua inteligência durante a noite, e, por trazer forte complexo de inferioridade pela função “inferior” que desempenha profissionalmente, faz questão de ser, digamos, um polemista sagaz, para, assim, realçar o seu ego, que porta forte problema de autoestima. Destarte, escolhe alguém como alvo, geralmente distante e inacessível, porque assim pode idealizá-lo a gosto, um alguém que julga com o nível que gostaria de ter, e, assim, imaginando-se “à altura” daquela pessoa (por isso a antagoniza) passa a desdizê-la ou tentar desautorizar-lhe as palavras. O estar distante tem outra importância adicional para ele: é mais seguro para sua neurose, pela maior dificuldade em vir a ser desmentido em sua fantasia narcísica de comparação, já que o outro não pode, pessoalmente, defender-se, e ele teme, do fundo da alma, justamente descobrir para si próprio, não ter o nível do outro-idolatrado (embora diga odiá-lo ou contraditá-lo). Normalmente, quando isso acontece, o contraditor está bem abaixo do nível, não só intelectual, como também moral, do atacado, e nem sequer de longe suspeita o patético a que se submete, na intenção de se sentir alguém, um espetáculo histriônico e deprimente aos olhos de muita gente sensata (que ele não percebe, obviamente, como tal). O tempo, porém, implacável juiz, põe os devidos pontos nos “is”, e “cada macaco retorna p’ro seu galho”, aos dizeres bem grosseiros, mas extremamente certeiros, em termos psicológicos, do ditado popular. Esse problema – o das pessoas não-verdadeiramente-vocacionadas para religião, que se dedicam a atividades espirituais – é um dos maiores escolhos-dilemas dos redutos de ação espiritual, desde que esta área de atuação surgiu no mundo. Foi graças a essa aberração moral que todos os sistemas e estruturas mesquinhos e insanos de convenção religiosa surgiram, com toda sorte de interesse político-econômico mascarado em forma de revelações e preceitos de origem pretensamente divina, como a História está abarrotada de casos deploráveis, trágicos, quando não genocidas. Não se trata de esperarmos santos nos ambientes religiosos, mas que os que se aventuram a devotar suas vidas a tal ordem de atividade façam-no realmente porque essa área de vivência humana é prioritária em suas vidas, no contexto de seus valores, como fome mais profunda de suas almas, e não porque não houve nada mais interessante com que se ocupar. Quem pretende enriquecer ou obter poder, que adentre o mundo empresarial e político, respectivamente, mas não simule ser o que não é, principalmente no campo em que menos as dissimulações são toleráveis. Se hoje já se compreende a necessidade dramática de as pessoas se decidirem por certos campos profissionais, conforme predisposições vocacionais, na esfera espiritual tal princípio torna-se dever primacial.

BTA – Só para deixar claro: você falou da busca de riquezas, de poder e de sobrevivência, através da religião. Está condenando a atitude dos que vivem, em tempo integral, dedicados a ela?

EEA – Se estivesse, estaria anatematizando o próprio Jesus, que, durante sua vida pública, no transcurso da pregação de seu Evangelho, como revelam os textos bíblicos, devotou-se, tão-somente, a essa função excelsa, assim como também os principais luminares que estabeleceram as bases da civilização na Terra, como Buda e Lao-Tsé. No que concerne ao Espiritismo, o próprio Kardec decidiu viver dos rendimentos da “Revista Espírita”, que publicou entre os anos de 1858 e 1869, a fim de que pudesse se dedicar, em caráter integral, aos seus estudos espíritas. Faço alusão crítica àqueles que adentram a religião, com a intenção de subsistir dela, apenas por não terem ou não julgarem ter outros meios para tanto, ou que fazem dela um trampolim para o sucesso pessoal, por se sentirem inaptos a atingir seus objetivos egoicos de outro modo, assim escolhendo o caminho “mais fácil” da religião. Dito de outra forma, passam a engabelar as pessoas, para alcançarem suas metas pessoais, como o homem que tem ganas de poder e resolve fundar uma religião ou ser o líder local da sua, já que não se sente capaz de desenvolver uma carreira política ou empresarial de brilho. Geralmente, por isso mesmo explicitado, costumam ser extremamente superficiais e limitados, assim atuando na periferia da atividade espiritual de qualidade, normalmente ludibriando pessoas de boa-fé, pouco instruídas, pouco inteligentes ou pouco maduras para lhes notar as intenções pérfidas.

BTA – Curiosamente, porém, Eugênia, as pessoas que se encaixam neste perfil psicológico que você apresenta não notam estar incursas em tal quadro patológico.

EEA – Trata-se de um complexo mecanismo de defesa, a fim de não colapsarem, ao se verem tão hipócritas e inconsistentes. Excetuando-se, como falamos, os criminosos mais cínicos, qualquer ser humano sente-se muito mal ao se perceber moral e psicologicamente incoerente. Assim, como revelam os estudiosos da mitomania (vício da mentira), começam a mentir conscientemente e, após um certo tempo, perdem a noção de que estão mentindo, passando a acreditar nas próprias fantasias. Como distinguir a verdade da impostura? O Cristo recomendou fórmula lapidar, prática e imbatível: “Conhece-se a árvore pelos frutos”. Que cada um observe onde mais estão os frutos do progresso, da vida, da transparência, do conhecimento, em níveis mais altos de organização e concepção, e se perceberá onde está mais o acerto e menos o erro.

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
em diálogo com Eugênia-Aspásia (Espírito)
3 de outubro de 2003

(*1) Eugênia, neste diálogo profundo e ao mesmo tempo chocante, intelectualmente instigante e moralmente esclarecedor, dá um verdadeiro show de conhecimento psicológico, num nível bem acima do padrão terreno. Bastante incisiva, todavia, não está, nesta peça magistral, para todos os “estômagos”. Sem dúvida, muita gente despreparada pode ter uma salutar indigestão do espírito, que lhe promoverá progresso e amadurecimento, entretanto, caso esteja suficientemente desenvolvida, psicológica e moralmente, para apreender a precisão cirúrgica (nos dois sentidos: de ser excelente, quanto de ser lacerante, embora terapêutica) dos conceitos por ela expendidos.

(*2) Eugênia faz referência ao termo apresentado em relação ao Cristo, pela psicografia de Chico Xavier, em função de qualificar a condição de autoridade máxima no planeta, ocupada por Jesus.

(Notas do Médium)