Oi, meu amiguinho. Você detesta gays, não é? Já pensou se você soubesse que sua mãe é gay? Senão, que tal seu filho primogênito, aquele mesmo que parece o maior garanhão do “pedaço”. Ah-ah! Você acha que todo gay quebra a mãozinha, n’é? Ah… sua mãe teve filhos, como toda mãe (Nossa! Como estou dado a falar obviedades hoje!), e seu filho já fez sexo com mulheres, não é isso? Certo… então você deduz, com segurança, a partir disso, que eles não aparecerão com um caso gay amanhã… Você, realmente, amigo, é grande entendido do assunto!

As estatísticas estão aí, p’ra ratificarem nosso “exagero”: 1/10 das populações humanas é homossexual, de modo que significa dizer que a cada dez pessoas que você conhece uma é homossexual e, provavelmente, você não notou. (Notou por que tenho que falar em termos tão óbvios?) Talvez por não falarem fino – se forem homens – ou por não falarem grosso – se forem mulheres. Talvez por não serem promíscuas, por você as considerar indivíduos decentes, respeitáveis e admiráveis. Talvez até por uma ou outra entre elas você julgar pessoas quase santas, ou modelos bem-acabados de virtude, ou portadoras de mentes invulgares, invejáveis. Bem… você pode ter razão, e provavelmente tem, quanto a tudo isso… mas a questão, meu camarada, é que ser gay não contradiz nenhuma qualidade ou atributo intelecto-moral.

Houve tempo em que se discutia, em acaloradas discussões teológicas, se as mulheres seriam ou não portadoras de almas eternas. Era muito claro, para grandes doutores da igreja, no passado, que a mulher ou era instrumento dos prazeres e necessidades do homem, ou constituía uma mera ferramenta de tentação para sua dignidade, por forças malévolas invisíveis… vistas como femininas, é claro, já que Javé, como reza o texto Bíblico era homem (Nossa! Que pecado seria duvidar disso!). Será que alguém, de sã consciência, supõe que se chegou ao pináculo da evolução cultural, psicológica, moral e dos costumes no seio das sociedades humanas? É óbvio que não, para qualquer mente acima do nível de idiotia. E é exatamente isso que se dá. Num futuro muito próximo, as pessoas ficarão chocadas com o que se faz e se diz dos homossexuais ainda hoje, tanto quanto ficam agora escandalizadas ao se aludirem aos absurdos que foram ditos sobre as mulheres no pretérito.

“A mulher é um homem inacabado” – afirmou Aristóteles.
“A mulher tem inveja do falo” – declarou Freud, há menos de cem anos.
“A mulher é a fonte do mal” – proclamou “Santo” Agostinho.
“Cabe às mulheres ficarem caladas nas igrejas” – determinou São Paulo.

As mentes modernas se arrepiam ao ouvir esses conceitos, mas foram avançados para os períodos históricos em que surgiram. Hoje, algumas estultícias se dizem dos gays, todavia já completamente fora de época, em se considerando o que dizem a Psicologia e a Medicina sobre a homossexualidade, há várias décadas.

“São endemoniados” – afirmam os neopentecostais.
“São viciados” – alardeiam os pudicos.
“São degenerados e pervertidos” – acusam os puritanos.
“São almas desequilibradas, em carma” – asseveram reencarnacionistas preconceituosos.

Atualmente, muita gente amadurecida e atualizada já se escandaliza com tais assertivas. São pessoas que acompanham os avanços da Ciência e os ventos da civilização dos ambientes mais cultos, onde há muito tempo a homossexualidade adquiriu cidadania. Mas muita gente ainda prefere fazer coro com a mediocridade e a mesquinharia das faixas baixas da civilização, quais silvícolas transportados da taba para a metrópole, improvisamente. Esses, em gritaria, até procuram respaldo sério, para suas proposições atualmenté até mesmo inconstitucionais, e portanto criminosas, para legislações mais avançadas, como a brasileira. E, assim, procuram trechos na Bíblia e em outros textos sagrados das tradições religiosas, esquecidos de que nesses mesmos textos antigos, cheios de metáforas, até à guerra se propugna enfaticamente, tanto quanto à intolerância, ao racismo, à xenofobia e a outros provincianismos primitivos e bárbaros.

Não se vê ninguém hoje abominar, publicamente, a postulação de que a Terra não seja o centro do universo, por não estar isso expresso em algum trecho da Bíblia, bem como ninguém expulsa mulheres de coros ou das tribunas nas igrejas, porque Paulo haja dito que se mantivessem em silêncio no reduto das naves religiosas. E por que, no que tange a homossexuais (assim como fazem em relação a espíritas), procura-se seguir, ao pé da letra, o que está dito nos textos sagrados? Não se percebe aí uma intenção pérfida ou, no mínimo, uma crassa incoerência? Não se nota que perseguir minorias já tão maltratadas, pelos preconceitos do mundo, fere, frontalmente, qualquer proposta decente de espiritualidade e religião, direito e moral?

Bem… foi esse o recado que quis lhe dar, meu chapa… E… Ah… por favor: se você é ainda daqueles que se coloca contra gays, a despeito do que disse, vou lhe ofertar um aviso amigo: pode, de fato, atrair um carma medonho em sua direção (no que diz respeito ao assunto, muito provavelmente ou em área ainda mais sensível para suas neuroses e fobias): você pode contrair uma doença séria, considerada, hipocritamente, exclusividade de gays; pode descobrir homossexuais, dentro de casa mesmo, em filhos, pais ou mesmo no seu cônjuge (que choque deliciosamente bem merecido, para um hetero preconceituoso, ser trocado por alguém do sexo oposto)… No mais… a reencarnação t’aí, p’ra terminar de dar um acabamento na lição que merece e precisa, para crescer um pouquinho e deixar de se sentir melhor que os outros em assunto tão tolo como preferências na cama: você mesmo pode ser conduzido a nascer em ambiente ainda mais preconceituoso que a Terra de hoje, digamos num mundo primitivo, e, é claro… como gay! Que Deus o abençoe na sua festinha de purpurina nas cavernas… Lá… o jogo, chefia, eu garanto!… é “parada dura”!

E, por fim, sugiro que tenha mais cautela em apresentar suas opiniões anacrônicas em público, principalmente entre pessoas mais esclarecidas, porque, atualmente, cada vez massas maiores de pessoas têm consciência de que quem é homofóbico tem algum trauma ou problema mal-resolvido na área, ou não se incomodaria com os gays. Os heterossexuais bem-resolvidos convivem muito bem e em paz com os homossexuais, inclusive tendo entre eles excelentes amigos (seus melhores amigos, como muitos dizem – os gays são extremamente gratos a quem os aceita e valoriza, sendo tão estúpida e injustamente perseguidos como são). Assim, meu chapa… nessa sua sanha de atacar gays publicamente… você pode ouvir, numa boa, se quiser ser honesto consigo mesmo, um corinho surdo, partindo dos olhares que o observam em silêncio, cantarolando o famoso refrão de música popular brasileira: “Tu é gay… tu é gay que eu sei!”

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Roberto Daniel (Espírito)
10 de outubro de 2003

(*) Novamente duro e diretíssimo, Roberto dá um solavanco espetacular, nas bases do preconceito homofóbico. O texto, em si, é uma peça deliciosa de se ler, propiciando, facilmente, umas boas gargalhadas (para quem superou essa ordem de preconceito, é claro): Roberto, com ironia fina e inteligente, brinca com as palavras e os conceitos, recheando-os de informações científicas sem cansar, e usando a mesma linguagem e raciocínio rasteiros que falam diretamente ao emocional das pessoas de nível médio evolutivo da Terra. Roberto está de parabéns, mais uma vez, por essa façanha!: falar o complexo e profundo, num nível acessível a todos.

(Nota do Médium)