Numa era de grandes transformações, em que os casamentos se tornam descartáveis, como também toda sorte de relações interpessoais, surge a gritante necessidade de ressignificarmos sentimentos e redescobrirmos os motivos profundos que nos unem uns a outros.
No passado, uma mera transação comercial.
Mais adiante, importantes vínculos políticos e internacionais eram estabelecidos pelas núpcias, como no caso das tribos, em evos primordiais, e das monarquias europeias, em épocas recentes. Hoje, amiúde, o mercado das conveniências é a prioridade na aproximação conjugal. E o coração e a felicidade eram e são postos em segundo plano, como se fossem questão de somenos importância.
Chegou a hora de revermos os motivos que levam determinadas uniões esponsalícias a acontecerem. Chegou o momento de levarmos em conta, sobremaneira, as afinidades espirituais, psicológicas culturais, em profundidade.
Curioso notar que aqueles que postulam o casamento por interesse o fazem com ares de desdém com relação àqueles que não o fazem, como se pertencessem a uma classe de gente mais lúcida e amadurecida. Denotam, todavia, a mais crassa ignorância da natureza humana. Como se pode conviver com alguém sem sintonia psicológica profunda?
Vivemos uma grande revolução civilizacional. As atividades e carreiras profissionais são hoje bem mais frequentemente definidas conforme tendências vocacionais, e os relacionamentos, de amizades aos consórcios matrimoniais, são cada vez mais tecidos sob regímen de sinceridade de propósitos, por quem, realmente, alinha-se com as novas tendências, a vanguarda mais avançada da civilização.
Não menospreze aquele que casa por amor… Ele, na verdade, está concretizando o mito de uma humanidade futura. Mitos são forças psicológicas e culturais que fazem a evolução das sociedades. Alguns vivem o sonho da Cinderela, como o do Herói, respectivamente, no que concerne ao universo afetivo e profissional. Outros, porém, continuam levando vidas insossas e incoerentes com suas estruturas íntimas, alimentando perigosas aparências, enquanto morrem um pouco todos os dias, de infelicidade e revolta.
Jung postulou que existiriam a “anima” e o “animus”, a sizígia, as forças psicossexuais constituintes da mente humana, correlacionadas, principalmente, ao pólo psicossexual oposto ao que se tem como prevalência psíquica. O casamento místico da alma, proposto por diversas tradições espirituais milenares, da mesma forma, sustenta a tese de que buscamos o pólo que nos falta, para nos sentirmos completos. Através do matrimônio, surge a oportunidade de complementação psíquica e emocional que, com o convívio, ativará os aspectos psicológicos antagônicos aos nossos, que nos faltam.
Procure, assim, amigo, seu complemento e nunca seu sustento. Toda forma de co-dependência é impura. Toda forma de perversão de valores, quando o essencial é posto em segundo plano para atender-se a conveniências subalternas de ordem material e social, como o status, constitui prostituição bem elaborada, mas ainda assim prostituição.
Que cada um reflita sobre isso e se lembre de Jesus, a impedir a “adúltera” de ser apedrejada, em plena via pública, porque se negara a viver um casamento mentiroso, imposto por seu pai, como era praxe da época, para manter um relacionamento da alma, com aquele que realmente condizia com os reclamos de seu coração. À frente de seu tempo, mereceu a proteção pessoal e direta do próprio Cristo, que impediu que a injustiça das injustiças ocorresse – como lamentavelmente é tão comum na Terra de hoje, bem como em todo mundo onde há muita heterogeneidade evolutiva: gente primitiva condenar, por não poder compreender, quem está à sua frente.
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Eugênia-Aspásia (Espírito)
22 de novembro de 2003