Estávamos no ano de 1954. Ultrapassáramos a metade do século XX. A União Soviética havia acabado de invadir (principalmente em 1949), diversos países da Europa Oriental, alinhando-os política e economicamente com seu sistema. Os Estados Unidos firmavam-se como nação dominante do mundo, o que já vinha se desdobrando desde 1890, com reforço substancial, após a Primeira Guerra Mundial. Com o término da Segunda Grande Conflagração Mundial, a nação de George Washington estabelecia-se como hegemônica. Havia, na época, porém, um traço claro que quebrava essa hegemonia: o poderio bélico-nuclear do gigantesco bloco de nações comunistas, pelo que os diversos historiadores e especialistas em estudos da época, preferem tipificar o mundo de então como “bi-polarizado”, o que assim se manteria por mais trinta e cinco anos, era finda com a famigerada “Queda do Muro de Berlim”, em novembro de 1989.

No Brasil, Getúlio Vargas, que havia sido eleito pelo povo e levado de retorno ao poder, após cinco anos de afastamento (com o fim da “Ditadura Vargas”, em 1945). Completaria quase 20 anos de poder máximo no país: 15 anos no período 1930-1945, 4 anos, no seu mandato a presidente 1950-1954, quando deixou esse mundo através do seu “suicídio”.

É neste ano 1954 que nossa rápida história começa.
Nesta época, o Brasil, apesar de uma nação com aproximados 50 milhões de habitantes, era, em termos resumidos, algo que equivalente a uma grande fazenda, espalhada por território continental. O sistema industrial era paupérrimo, apesar dos avanços substanciais como a inauguração da “Companhia Siderúrgica Nacional”. A maioria da população vivia na região rural. O comércio era fraco e limitado. Por fim, as malhas ferroviária, rodoviária e “aérea” igualmente eram extremamente precárias. Culturalmente, o país era extremamente influenciado pelos Estados Unidos (mais que hoje), e os filmes de Hollywood enchiam salas de cinema por todo o país.

Havia um reduto para a brasilidade e o projeto da Espiritualidade Superior, com a atividade cultural do país: o rádio e a música popular. Apesar das enormes intromissões do poderio americano, até mesmo nesse âmbito, grandes nomes da interpretação musical, como Cidinha e Dalva Baptista, e gênios inesquecíveis da composição pátria trabalhavam, na época, na criação da alma nacional, se é que assim podemos dizer. As primeiras estações de televisão já haviam sido instaladas em algumas capitais do país, e, de fato, no Rio de Janeiro e em São Paulo, havia milhares de aparelhos em operação, nos lares das duas grandes metrópoles brasileiras. Mas era, indubitavelmente, o rádio o grande veículo de união nacional. No ano seguinte (1955), o rádio-jornal “A Voz do Brasil”, transmitido pela “Rádio Nacional”, do Rio de Janeiro, iria completar já 20 anos de existência (foi criado em 1935 e é ativo até hoje, na iminência de completar seus 70 anos de atividade ininterrupta). Sua poderosa emissão de ondas eletromagnéticas alcançava praticamente todo o território brasileiro, tal alcance facilitado, também, pela baixíssima “poluição eletrônica” do ar, por aqueles dias. Pontualmente às 19 horas, por todo o Brasil, a inconfundível melodia de “O Guarani”, de Carlos Gomes, era reproduzida por centenas de milhares de rádios disseminados por todo o território nacional.

Lucrecia reencarnou para ministério importante na área de difusão do Espiritismo, em terras brasileiras, aproveitando o enorme potencial radiofónico daqueles dias. Encabeçaria esse grande movimento, até que, mais tarde, pudesse acontecer outro “boom” difusivo, programado para a virada do século, dessa vez pela televisão.

Visitara Chico Xavier no ano anterior, e já não havia mais dúvidas. Não só sua ideia “mirabolante” de colocar um programa de rádio na Nacional era, de fato, um comando do Plano Superior, como sabia que não poderia mais adiar. Tinha sido encarregada daquele importante ministério, antes de reencarnar, convertendo gigantescas moles humanas, sobretudo das faixas mais instruídas da sociedade, para as hostes espíritas. Segundo o planejamento do Plano Maior, tudo deveria ter começado, em verdade, em meados da década anterior, logo após o desfecho da Segunda Grande Guerra. Ela estava, assim, aproximadamente com 10 anos de atraso naquela tarefa impostergável e grave. Sérios comprometimentos encarnatórios já estavam acontecendo, já que centenas de milhares de seus ouvintes eventuais daqueles 10 anos de transmissão que não aconteceram não haviam travado contato com a “Doutrina Libertadora”, e, em cadeia, milhares de eventos danosos, escolhas inadequadas e desvios de rota existencial começaram a acontecer. Grandes mentores da Espiritualidade Maior estavam severamente preocupados com o efeito-dominó negativo, em massa que, dessa forma, já estava ocorrendo por todo o país, pela negligência de Lucrecia.

Não se casara, para que pudesse ter mais liberdade de desdobrar a missão monumental que estava sob seu encargo, contava então com quase 40 anos, e teria uma programação existencial, para, no mínimo 80, a fim de dar pleno andamento ao projeto grandioso de sua presente reencarnação.

Amigos, colaboradores e patrocinadores não faltariam. Conhecia muita gente do mundo do rádio na época, e deveria partir para a Rádio Nacional, impreterivelmente, naquele ano, já que suas iniciativas mais modestas na área de divulgação espírita estavam restritas ao âmbito do Rio, sua cidade natal.

Mas Lucrecia conheceu um homem “maravilhoso”, e foi “irresistível”: “tinha que” se casar com ele, e viver seu grande sonho de amor. Tentaria ter filhos, apesar da idade avançada para tanto, e continuaria seu trabalho de oradora espírita, sem precisar renunciar à sua vida pessoal.

Lucrecia realmente se casou. Teve um filho dois anos depois, e cuidou com primor de seu rebento, até a vida adulta. Jamais faltou com seus deveres de boa esposa e mãe, nem havia absolutamente nada que se pudesse dizer dela, em termos de negligência ou incapacidade profissional, no exercício digno do magistério a que se dedicara, desde a mocidade. Fazia belíssimas preleções espíritas e, para muitos, Lucrecia assemelhava-se a anjo caído, chorando a saudade do paraíso a que pertencia. Mas ninguém imaginaria que aquela mulher exemplar, aquela matrona de nobreza e beleza incomuns vivia angústias indescritíveis… Lucrecia tinha uma missão grandiosa a realizar, que não levou a cabo. Preferiu viver a comodidade de uma vida comum, renunciou a viver para o bem coletivo, devotando-se, quase que inteiramente, ao “reto viver espírita” de mãe, dona-de-casa, esposa e professora. Lucrecia, porém, logo após seu filho ingressar na faculdade, aos 18 anos, sem nem sequer completar 60, desencarnou, vitimada por câncer insidioso que devastou todo o seu organismo em dores cruciantes. Uma frustração inominável carcomia-a por dentro, e muitos foram os que, no leito de morte da confreira “ideal” disseram que partiu um “espírito de escol”, de volta “às moradas do Éden, d’onde nunca deveria ter-se ausentado”. E, no entanto, Lucrecia desencarnara atormentada, e ficou ainda mais, ao se inteirar, mais detalhadamente, no plano espiritual, da dimensão ciclópica de sua omissão. Milhões de destinos entrelaçados haviam sido comprometidos seriamente, pela omissão indesculpável de sua parte, e o futuro projeto de divulgação do Espiritismo pela televisão, que teria também seu responsável principal, várias décadas mais tarde, sofreria empeços muito maiores.

Alternativamente, como não seria possível deixar de todo vago o “lugar da tarefa” de Lucrecia, a Espiritualidade Superior providenciou um missionário-segunda-opção, já reencarnado para tal eventualidade, sem as mesmas aptidões apropriadas à função que Lucrecia apresentava, e, assim, surgiu Carlos Pastorinho, com suas mensagens diárias ao rádio que, mais tarde, vieram a compor o mega-best-seller nacional: “Minutos de Sabedoria”.

Ninguém ao certo saberá dizer se você, prezado(a) leitor(a), está no caminho certo, ou não, a não ser sua própria consciência. Ouça-a, vigie-a, observe-a diuturnamente, e saberá se está na rota do bem, ou quiçá, apesar da beleza de suas opções, apontando para o caminho tenebroso do não-bem, que, inexoravelmente, redundará em mal, em um grande mal, principalmente para você próprio, mas espalhando-se para outros, a começar de seus entes mais queridos.

Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
Gustavo Henrique (Espírito)
15 de janeiro de 2004